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Personagem Bíblico
CONTEXTO HISTÓRICO

Juízes

O período dos juizes veio após a conquista de Canaã sob a liderança de Josué, o que trouxe relativa paz e estabilidade para os israelitas (Js 21.43-45). A geração seguinte, entretanto, fracassou em assegurar as bênçãos de Deus e falhou em expulsar as nações remanescentes em Canaã. A consequência deste fracasso foi um enfraquecimento crescente na vida de Israel, marcado por conflitos entre as tribos, sincretismo religioso e a derrota diante das nações estrangeiras. A resposta de Deus para a desobediência e a idolatria de Israel foi o juízo sobre a nação, ao permitir que sofressem derrotas nas mãos de uma sucessão de inimigos (Jz 2.12-15) — sírios (3.8), moabitas (3.12), filisteus (3.31; 13.1), cananeus (4.2), midianitas (6.1) e amonitas (10.9). Os juizes eram homens levantados pelo Senhor (Jz 2.16) para livrar a nação da opressão estrangeira e restaurar a adoração a Deus. Em todos os casos, entretanto, depois do livramento conquistado pelo juiz, o período que se seguia à sua morte resultava numa deterioração ainda maior do compromisso do povo com o Senhor (Jz 2.19).

Características dos juizes

O título “juiz” vem de Juizes 2.16: “Então levantou o Senhor juizes, que os livraram das mãos dos que os despojavam”. Este termo, entretanto, carrega mais do que uma conotação meramente judicial. Durante o Êxodo, Moisés nomeou juizes, que funcionavam como seus delegados, com autoridade para aplicar a Palavra de Deus em situações que requeriam um julgamento legal (Êx 18.13-27); o papel judicial deles continuaria depois que o povo se estabelecesse em Canaã (Dt 16.18). Nos tempos de opressão nacional, entretanto, a função dos juizes era a de ser os instrumentos usados por Deus no livramento do povo. Num tempo de apostasia, eram capacitados pelo Todo-poderoso de maneira sobrenatural para libertar Israel, no nome do Senhor (Jz 3.10, 28; 7.15; etc.), enquanto nas épocas de paz aparentemente exerciam o papel de líderes (Jz 12.8-13).

O caráter daqueles homens levantados pelo Senhor para livrar Israel era variado. Otniel, sobrinho de Calebe, apresenta-se como um juiz exemplar. Chamado por Deus, recebeu o poder sobrenatural do Espírito Santo, derrotou o opressor de Israel em batalha e trouxe um período de paz (Jz 3.9,10). Cada juiz que se seguiu, entretanto, foi marcado por ambigüidades deliberadas de caráter. Eúde, o canhoto, triunfou por meio do engano e do assassinato (Jz 3.15-26). Baraque relutou em obedecer ao Senhor, ao insistir em que Débora [a juíza] o acompanhasse (Jz 4.8); desta maneira, a honra pela morte do general inimigo foi de uma mulher, Jael, esposa de Héber, o queneu (v. 21). Gideão precisou de repetidas garantias para acreditar que o Senhor estava com ele (Jz 6.15, 27,36-40; 7 .1 0 ) e, no final de sua vida, levou Israel de volta à idolatria (Jz 8.27). O passado duvidoso de Jefté, filho de uma prostituta, foi confirmado pela insensatez do voto que fez (Jz 11.30,31), numa tentativa de manipular a vontade do Senhor. Sansão quebrou repetidamente a Lei de Deus, ao tocar e comer coisas proibidas a um nazireu (Jz 14.8ss; veja 13.7) e em envolvimentos sexuais ilícitos (Jz 14.2,3; 16.1,4ss). Este padrão persistiu no livro de 1 Samuel. Eli, chamado de juiz (1 Sm 4.18), honrou os filhos rebeldes mais do que ao Senhor (1 Sm 2.29). Até mesmo Samuel, que combinou as funções de profeta, sacerdote e juiz (1 Sm 7.15-17), teve filhos desobedientes (1 Sm 8.5).

Em cada um dos casos, os juizes apresentavam muitos dos defeitos que eram típicos da nação naquela época. Funcionavam como uma figura de Israel, ou seja, israelitas típicos equipados para o serviço do Senhor unicamente por sua graça. A implicação do livro é que o Senhor é o verdadeiro Juiz (Jz 11.27), e os instrumentos humanos da salvação são chamados e preparados de forma sobrenatural, usados em sua graça para aliviar o sofrimento de seu povo. Os juizes prefiguravam a Igreja: imperfeitos no caráter, mas mesmo assim comissionados pelo Senhor para levar sua mensagem a um povo rebelde. Por isto, Hebreus 11.32 menciona vários juizes pelo nome, como exemplos de fé.

No sentido de que Deus é quem levanta os governantes de seu povo, o período dos juizes marcou mais o governo imediato do Senhor do que o tempo da monarquia que se seguiu (1 Sm 8.7,8; Is 1.26). Assim, as intervenções miraculosas de Deus durante este período estavam associadas aos juizes, ao passo que, no decorrer da monarquia, os profetas eram o foco desses sinais.

Características do povo

Israel foi obediente ao Senhor, sob a liderança de Josué, e obteve muitas vitórias diante dos inimigos, conforme Deus prometera (Js 21.43-45). A questão subentendida no livro de Juizes é o não cumprimento da promessa do Senhor aos patriarcas de dar toda a terra de Canaã a Israel. Juizes 1 registra a continuação da campanha de Josué contra os cananeus, inicialmente com sucesso (Jz 1.4-20). A total confiança no Senhor, entretanto, deu lugar a alianças com os moradores da terra (Jz 1.23-26), as quais foram proibidas por Deus (Êx 23.32); as campanhas seguintes não foram finalizadas (Jz 1.27-33) ou fracassaram (v. 34). O cumprimento da promessa era visto como condicionado à obediência de Israel aos mandamentos de Deus. O Senhor permitiu que alguns cananeus sobrevivessem, para testar o nível do compromisso de Israel com Ele (Jz 2.21 a 3.4), devido à desobediência da geração que se levantou após Josué.

A desobediência nas campanhas militares estava associada com a persistente apostasia do povo. Aparentemente, depois de se estabelecer na terra, os israelitas iniciaram um sincretismo religioso, pois adoravam o Senhor e também os deuses locais da fertilidade (Jz 2.11-13). A amplitude desta apostasia é indicada pelo fato de o pai de Gideão ser um sacerdote de Baal e de Aserá (poste-ídolo) (Jz 6.25) e pela idolatria aberta mencionada em Juizes 17, a qual envolveu um sacerdote levita, e a aparente mistura da adoração de Baal e do Senhor da Aliança de Israel, na criação da adoração a Baal-Berite (literalmente, “Baal da Aliança), em Juizes 8.33. Esta apostasia provocou o juízo de Deus contra seu povo (Jz 2.12-15; 3.7; 6 .1 0 ), a fim de trazê-lo de volta para si.

A repetida desobediência e a apostasia proporcionam o padrão da narrativa da maior parte do livro de Juizes. Há um padrão comum que se repete:

1 . Israel faz o que é mau (Jz 2 .1 1 ; 3.7, 1 2 ; 4.1; 6 .1 ; 10.6; 13.1).


2 . O Senhor entrega o povo na mão dos inimigos (Jz 2.14; 3.8, 1 2 ; 4.2; 6 .1 ; 1 0 .9 ; 13.1).


3. Israel clama ao Senhor (Jz 2.18; 3.9,15; 4.3; 6 .6 ; 10.10; significativamente, isso não ocorre no episódio de Sansão).


4. O Senhor envia um libertador (Jz 2.16; 3.9,15; implícito em 4.4; de maneira significativa, entretanto, um profeta é enviado primeiro em 6 .8 ; inicialmente, Deus recusou-se a salvar o povo em 10.13; e o resgate tinha “apenas começado” com Sansão em 13.5).


5. O resultado é vitória e paz (Jz 3.10, 30; 4.23; 8.28; 11.33; contudo, não há declaração de paz depois de Jefté nem de vitória depois de Sansão).

As mudanças no padrão da narrativa refletem a declaração de Juizes 2.19 de que, depois da opressão de um inimigo e da libertação providenciada por Deus, o povo voltava para um estado pior do que o anterior. A desobediência e apostasia seguiam uma espiral descendente e não simplesmente a repetição de um fracasso. Portanto, este período apresenta similaridades com a época anterior ao Dilúvio (antes de Noé), quando o Senhor permitiu que as consequências do pecado do homem crescessem. Aqui, a permissão de Deus na multiplicação da maldade é compensada pela sua obra de libertação pela graça, à luz do arrependimento do povo, mas Juizes 6 . 8 e 10.13 demonstram que a contrição não era genuína. Esta apostasia crescente estabeleceu o pano de fundo para a próxima grande revelação da história da salvação associada com os reis e profetas de Israel.

As consequências práticas da desobediência e da apostasia de Israel são ilustradas no término do livro. Juizes 17 e 18 falam sobre a idolatria aceita entre o povo (17): uma das tribos de Israel adotou um sacerdócio idólatra (18.1-26) e abandonou a território que Deus lhe entregara, para se apossar de maneira violenta de outra área (18.2731). Juizes 19 a 2 1 registram a degeneração moral de Israel, o pecado dos benjamitas, mais sério que a transgressão de Sodoma (19). O esforço para reparar este erro quase levou à aniquilação de uma tribo (2 0 ) e a uma série de decisões extremamente duvidosas, na tentativa de corrigir o erro (21). A desunião entre as tribos era um problema constante (Jz 5.17; 8 .1 ss; 1 2 .1 ss; 21); a unidade do povo da aliança, pela qual Deus os levou à Canaã, estava ameaçada, porque eles se afastaram do Senhor. A desobediência e a apostasia levaram a uma deterioração da moral e ao aumento da violência, juntamente com uma avaliação distorcida — baseada na vontade humana e não na de Deus — no estabelecimento do certo e do errado (Jz 17.6; 21.25). Contra este pano de fundo, o governo de um rei foi antecipado (Jz 19.1; 21.25) como o ponto central para a responsabilidade da obediência de Israel à aliança.

Características de Deus

A verdade repetida em todo o livro é o direito soberano do Senhor e seu poder para executar juízo sobre o povo da aliança. A justiça de Deus é vista na sua ira causada pelo pecado (Jz 2.14). A transgressão é vista como desobediência à aliança (v. 20). O Senhor é revelado como aquele que não tolera a quebra do compromisso para com Ele; por isso, disciplina continuamente seu povo, para levá-lo ao arrependimento.

Juntamente com o tema da justiça de Deus está a revelação de sua misericórdia para com seu povo, quando está sob juízo. Ao levantar os juizes para resgatar Israel, o Senhor demonstra seu amor e fidelidade à aliança. Quando o Todo-poderoso levava o povo de volta à dependência dele, respondia com amor, o qual, entretanto, vai além do desejo do homem por salvação; em Juizes 10.16, depois de ameaçar não mais salvá-los, “o Senhor não pôde mais suportar a angústia de Israel”. Em Juizes 13 a 16, aparentemente não há clamor ao Senhor por livramento da opressão dos filisteus. E como se a nação não desejasse mais a liberdade; mesmo assim, Deus tomou a iniciativa e enviou Sansão como juiz.

O quadro da espiral descendente do pecado reflete a corrupção total do homem e a urgência da obediência de todo o coração ao Senhor, por parte de seu povo; entretanto, ao levantar os juizes, apesar do corrupção deles, Deus demonstrava sua soberania sobre o pecado e como, em sua providência, fazia o bem a partir do mal.

Finalmente, este período da história israelita revela a dependência que o povo de Deus precisava ter de seu Senhor, para cumprir as promessas. A santidade de Deus não admite a apostasia, embora o seu amor nunca cesse de prover o caminho da salvação para seu povo. Por trás dos juizes humanos, estava o verdadeiro Juiz (Jz 11.27), o Senhor Soberano, que levanta nações para disciplinar seu povo, o Deus cujo poder capacita um homem a derrotar mil (Jz 15.15). A história dos juizes revela o Senhor de toda a História, o qual permite que seu povo experimente a derrota para levá-lo ao arrependimento, mas que sempre proporciona o caminho da salvação aos que se voltam para Ele.

O período dos juizes é uma triste espiral do pecado, a despeito do privilégio do povo de ter o próprio Deus como governante por meio de seus servos. O fracasso desse período, entretanto, em produzir obediência à aliança, apontava para além, a uma nova revelação dos propósitos salvadores do Senhor, não por intermédio dos juizes, mas por meio da responsabilidade do Rei escolhido por Deus. O fracasso dos juizes estava no fato do povo não considerar a autoridade divina deles, atitude observada na rapidez com que rejeitavam ao Senhor depois da morte do libertador; o rei seria um símbolo permanente do direito que Deus tem de governar e aponta para a única esperança de salvação; o advento do rei humano-divino, Jesus Cristo.

Este estudo foi elaborado pela equipe do Portal Personagem Bíblico a partir de pesquisa bíblica, tendo como uma das referências o verbete “Juízes” da obra Quem é Quem na Bíblia Sagrada (Editora Vida).

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