Rei e reinado
“Pois Deus é o Rei de toda a terra; cantai-lhe salmos de louvor” (SI 47.7). Uma verdade fundamental ensinada na Bíblia — talvez a mais importante — Deus é o Rei de toda a Terra e seu reino é eterno (SI 9.7; 10.16). É soberano por direito, pois é o Criador de todo o Universo, o qual lhe pertence (Jó 41.11; SI 50.10-12; 96.10). Ele reina hoje e, embora nem todas as pessoas reconheçam seu governo, um dia o farão (Zc 14.9). O Senhor reina não apenas sobre a terra, mas também no céu (SI 103.19). Todos os seus anjos lhe prestam obediente lealdade, “todos os seus exércitos celestiais,… ministros seus…em todos os lugares do seu domínio” (SI 103.21,22).
O governo de Deus como Rei é universal, embora seja também particular. De acordo com o AntigoTestamento, o Senhor escolheu um povo para ser sua “possessão exclusiva'. No monte Sinai, Deus chamou Moisés do alto da montanha e lhe disse: “Assim falarás à casa de Jacó, e anunciarás aos filhos de Israel: Vistes o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias, e vos trouxe a mim. Agora, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos. Embora toda a terra seja minha, vós me sereis reino sacerdotal e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel” (Ex 19.3-6; cf. Is 43.15).
Talvez esta consciência de que Deus era o Rei — e, num sentido especial, o Rei de Israel — tenha feito com que os israelitas demorassem tanto tempo para estabelecer um rei humano; naturalmente Israel entraria em contato com o conceito do reinado terreno mais por meio da observação da prática dos vizinhos (Jz 3.12; 4.2; 8.5). Gideão, por exemplo, quando lhe ofereceram a oportunidade de tornar-se rei e iniciar uma dinastia, recusou a oferta com as seguintes palavras: "O Senhor sobre vós dominará” (Jz 8.23). Suas palavras deram um testemunho eloqüente da ideia de que somente Deus era o Rei legítimo, embora suas atitudes posteriores indicassem uma inclinação em outra direção; no final, exigiu uma recompensa real por seus serviços (Jz 8.24-26), teve 70 filhos (v. 30) e colocou em um deles o nome de Abimeleque, que significa “meu pai é rei” (v. 31).
O desejo por um rei foi abertamente demonstrado pela exigência dos anciãos (1 Sm 8). Cientes de que chegara o momento de Samuel passar a liderança para outra pessoa e seus filhos não eram qualificados para o substituírem, eles exigiram: “Constitui-nos, agora, um rei sobre nós, para que nos governe (literalmente “julgue”), como o têm todas as nações” (1 Sm 8.5). Samuel, o juiz, ao ouvir a palavra “julgar” na exigência dos anciãos, aparentemente interpretou-a como uma rejeição pessoal, e “esta palavra não agradou” a ele (v. 6). O Senhor, porém, assegurou-lhe que o problema era muito mais profundo: “Não rejeitaram a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre eles” (v. 7). Assim, o reinado terreno foi introduzido em Israel, em meio à pecaminosidade humana.
Mesmo assim, desde o princípio, Deus já desejava que um dia Israel tivesse um rei terreno (Gn 49.10; Nm 24.7,17-19; cf. Gn 17.6,16; 35.11). Moisés previu o dia em que os israelitas se estabeleceriam em Canaã e desejaria um rei; até mesmo deu instruções para a regulamentação do reinado, quando isso acontecesse (Dt 17.14-20). Desta maneira, a despeito do momento impróprio e do tom da exigência dos anciãos em 1 Samuel 8, o Senhor concordou em dar-lhes um rei. Primeiro, porém, fez com que Samuel os advertisse sobre o sofrimento que enfrentariam sob o domínio de um monarca, como acontecia com as outras nações (1 Sm 8.10-18). De fato, jamais foi intenção do Senhor que seu povo tivesse aquele tipo de rei. Pelo contrário, o monarca de Israel deveria estar subordinado ao grande Rei, o próprio Deus. O governante, assim como seus súditos israelitas, precisava obedecer à Palavra de Deus (Dt 17.18-20). O monarca de Israel deveria ser um rei “sagrado”, o ungido do Senhor, alguém cuja vida seria sacrossanta (1 Sm 26.9). Diferentemente dos faraós do Egito, entretanto, não seria adorado como se fosse a encarnação dos deuses; também, ao contrário dos reis da Babilônia, não seria visto como divino por adoção. Em vez disso, o rei de Israel seria simplesmente responsável por temer ao Senhor, servi-lo e obedecer-lhe, e não se rebelar contra seus mandamentos — em resumo, precisava seguir ao SENHOR, como todos os cidadãos de Israel (1 Sm 12.14,15).
Foi exatamente nesta questão da obediência à Palavra de Deus que o primeiro rei de Israel, Saul, filho de Quis, fracassou (1 Cr 10.13). A primeira ocasião em que o Senhor o repreendeu explicitamente, por meio de uma palavra profética proferida por Samuel, está registrada em 1 Samuel 13. Especificamente, Saul foi considerado um louco, pois não guardava os mandamentos (ou um dever designado) do Senhor (v. 13). A tarefa em vista era importante, dividida em duas partes, e fora atribuída a Saul por ocasião de sua unção (1 Sm 10.7,8), destinando-se a testar sua disposição de submeter-se ao Grande Rei (para mais detalhes, veja Saul, rei de Israel). A segunda repreensão explícita também centralizou-se na questão da obediência (1 Sm 15). Enquanto a primeira destruiu as esperanças de Saul fundar uma dinasüa (1 Sm 13.13,14), a última assinalou que ele pessoalmente fora rejeitado, aos olhos de Deus, como rei (1 Sm 15.26). O cap. 16 de 1 Samuel começa com a confirmação do Senhor de que Saul, o qual essencialmente representava o rei escolhido pelo povo (1 Sm 8.18, 22; 12.13), fora definitivamente rejeitado. Deus então anuncia que escolhera seu próprio rei (“um homem segundo o seu coração/da sua própria escolha”: 1 Sm 13.14; cf. com o “melhor do que tu em 1 Sm 15.28). É difícil evitar a conclusão de que, na pessoa de Saul, o povo recebeu o objeto de sua exigência pecaminosa de um rei “como o têm todas as nações” e na mesma pessoa receberam também o castigo por esse pecado (cf. Os 13.10-11).
O rei escolhido por Deus era Davi, filho de Jessé (1 Sm 16.1-13). Embora não fosse imune ao pecado (2 Sm 11), ele tinha um coração voltado para o Senhor (cf. 1 Sm 16.7). Mais importante, "o Senhor era com ele” (1 Sm 16.18; 18.12,14,28) e prometeu-lhe um reino que seria firmado “para sempre” diante dele (2 Sm 7.16). A promessa de Deus a Davi, de um reino perpétuo, registrada em 2 Samuel 7.4-17 (cf. 1 Cr 17.3-15), é considerada o ápice teológico do Antigo Testamento. Ao recordar o passado, o Senhor tomava as promessas de bênçãos feitas a Abraão e sua semente eleita (Gn 12.2,3) e as convergia para Davi (veja especialmente 2 Sm 7.9,10,12). Ao contemplar o futuro, estabelecia o cenário para a esperança messiânica que se tornaria a figura dominante na fé de Israel, tanto antes como depois do exílio (veja a seguir).
O governo de Davi, como o do próprio Deus, foi caracterizado não somente pela subjugação dos inimigos de Israel (2 Sm 8.1-14), mas também por ações justas e íntegras (v. 15), medidas provavelmente pelo “livro do direito do reino” (1 Sm 10.25) e pela Lei de Moisés (1 Rs 2.3; cf. Ne 9.13; sobre o governo justo e íntegro de Deus, seja SI 89.14; 99.4). Assim como mais tarde Jeroboão foi visto como a quintessência do rei perverso (1 Rs 15.34; 16.2,19; etc.), Davi foi colocado como o rei teocrático ideal, leal e fiel (1 Rs 11.4,16; 14.8; etc.). Apesar disso, nem ele nem seus descendentes viveram totalmente de acordo com este ideal. Os próprios fracassos deles despertaram a esperança de que um dia “um ramo” verdadeiramente justo apareceria na linhagem de Davi, um “Rei” que “reinará e prosperará, e praticará o juízo e a justiça na terra” (Jr 23.5; cf. 33.15). Esta expectativa messiânica frequentemente era expressa nos escritos proféticos (Is 11.1; Jr 23.5,6; Ez 34.24; Os 3.5; Zc 3.8; 6.12) e foi somente reforçada com a queda de Judá e a destruição do Templo.
De fato, foi na pessoa de um filho de Davi que as expectativas messiânicas do Antigo Testamento se cumpriram. Jesus, o Cristo (que quer dizer Messias, o ungido), foi aclamado por Deus em seu batismo e na Transfiguração com palavras ricas em conotações messiânicas: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17 e 17.5 – batismo e transfiguração, respectivamente). “Este é o meu Filho” lembra “Tu és meu Filho” do Salmo 2.7, um texto messiânico. “Em quem me comprazo” lembra; ‘Aqui está o meu Servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se compraz a minha alma”, de Isaías 42.1, que representa a primeira das canções do profeta sobre o sofrimento do servo messiânico. “Meu Filho amado” pode até mesmo lembrar “o teu único filho, Isaque, a quem amas”, de Gênesis 22.2, o texto no qual Deus instrui Abraão a tomá-lo e oferecê-lo como sacrifício ao Senhor. Tudo isso estava implícito nas poucas palavras proferidas pelo Deus Pai e dirigidas ao seu Filho unigênito. Seria de estranhar que após o batismo Jesus fosse imediatamente “levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4.1)? Será que Cristo aceitaria um papel messiânico que o levaria a uma cruz de criminoso antes de lhe dar uma coroa de glória?
Aqueles que conhecem e aceitam o testemunho das Escrituras sabem que a resposta a essa pergunta é sim. O apóstolo Paulo resumiu eloqüentemente a humilhação seguida da exaltação, a qual foi o propósito do primeiro advento de Jesus, o Cristo, “que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens. E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Cristo Jesus é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.6-11). À luz do que se cumpriu através da morte de Jesus, as palavras que Pilatos mandou colocar acima da cabeça dele, na cruz, “ e s t e é J e s u s , o r e i d o s ju d e u s ” , embora fossem irônicas, certamente eram verdadeiras (Mt 27.37; cf. Jo 18.37).
Nossa discussão sobre o reinado na Bíblia começou com o reconhecimento de que Deus, o Criador, é Rei por direito. Em 1 Timóteo 6.15, Paulo reconhece o Pai como o “bendito e único Soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores”. Apocalipse 19.16 completa o círculo, ao descrever também o Filho como “Rei dos reis e Senhor dos senhores”. Jesus, co-criador com o Pai (Jo 1.3; Cl 1.16), entrou em sua própria criação, para estabelecer seu Reino. Trata-se de um governo que não foi edificado pelas mãos dos homens, nem se consegue entrar nele por meio do esforço humano. E um Reino composto pela “geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido” (1 Pe 2.9), um povo não apenas chamado “das trevas para sua maravilhosa luz , mas comprado pelo sangue do Rei (At 20.28; Ap 5.9; Cl 1.16-20). Este é o Reino para o qual a promessas do Antigo Testamento apontam e do qual os reis da dinastia de Davi eram apenas uma sombra. p,Ll
Este estudo foi elaborado pela equipe do Portal Personagem Bíblico a partir de pesquisa bíblica, tendo como uma das referências o verbete “Rei e reinado” da obra Quem é Quem na Bíblia Sagrada (Editora Vida).
