Pular para o conteúdo
Personagem Bíblico
CONTEXTO HISTÓRICO

Filiação

Filiação é uma ideia com muitas facetas na Bíblia. Inclui os filhos vinculados literalmente à família e os usos metafóricos tais como o que se refere aos habitantes de Jerusalém como seus “filhos”. Mais importante são as referências nas quais Deus é considerado nosso Pai e um indivíduo ou um grupo são chamados seus filhos (as variações de termos relacionados com a expressão “filhos de Deus” estão baseadas mais em estilística do que em variações teológicas).

Numa expressão típica dos povos do Mediterrâneo, a Bíblia ocasionalmente refere-se aos seres angelicais como “filhos de Deus” (Jó 1.6; 2.1; 38.7; Sl 89.6; não é o caso, porém, de Gn 6.4). Devido ao fato de Deus ser o criador e tais seres estarem sob sua autoridade, são também chamados de “filhos de Deus”. Similarmente, os seres humanos são chamados de "geração de Deus” (At 17.28,29) porque Ele é o criador. Esse uso, entretanto, é muito raro.

Filiação redentora

O tema dominante que está no cerne da revelação bíblica é que Deus é Pai, em virtude da redenção. Até mesmo os textos que usam a linguagem da criação ou geração (como Dt 32.6 e Ml 2.10) fazem isso por meio de metáfora, mas não se referem nem à geração biológica da humanidade por Deus (como nas religiões pagãs) nem à criação, e sim, pelo contrário, à formação de Israel como filho de Deus, escolhido e retirado do Egito, no Êxodo (Os 11.1).

Em Isaías 63.16, o profeta clama: “Mas tu és o nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és o nosso Pai, nosso Redentor desde a antigüidade é o teu nome”. Deus redimiu Israel e, assim, é o Pai da nação israelita. Pelo fato de que o rei de Israel representava a nação, também era considerado filho de Deus (2 Sm 7.14; 1 Cr 17.13). Ele era servo e filho (Sl 89.20,26) adotivo de Deus (Sl 2.7). No período entre os dois testamentos essa ideia levou ao uso da frase “filho de Deus” como um título messiânico (4 Q Florilégio 1.11-13; 4 Q ps Dn A 1.7-2.1)1.

Filiação escatológica

A expressão "Filho de Deus” como título messiânico não é surpresa na Bíblia, mas também não é o único uso escatológico do tema filiação. A confiança de Israel de que Deus viria e supriria suas necessidades era expressa pelos profetas em linguagem familiar (Is 63.16; 64.8; Jr 3.19; Os 1.10). No meio da opressão, o povo de Deus olhava para adiante, para o dia da bênção, quando seriam chamados “filhos de Deus”.

Filiação em Cristo

Jesus, o Messias, frequentemente é chamado de Filho de Deus, no Novo Testamento. Às vezes, a frase é usada apenas como um título messiânico (Lc 4.41; Jo 1.49). Em outras ocasiões, o identifica como o Filho de Deus único e preexistente (Gl 4.4; Mt 22.41-46 — veja Jesus). Outras pessoas tornam-se filhas de Deus quando crêem em Jesus Cristo, o Filho de Deus (Jo 1.12). A adoção delas na família de Deus é por meio de Jesus Cristo (Ef 3.5; veja também Mt 11.27; Rm 8.14-19; Hb 2.5-13). Mais especificamente, foi por meio de seus sofrimentos que o Filho de Deus trouxe outros membros para a família de Deus. Hebreus 1 e 2 desenvolve o tema da supremacia de Jesus como Filho. Hebreus 2.10-18 mostra como Cristo trouxe “muitos filhos à glória”. Claramente (2.11,14,17,18), os seus sofrimentos e a sua morte foram os meios pelos quais o Filho libertou os que estavam “sujeitos à escravidão” (2.15) e trouxe os filhos de Deus, os irmãos de Jesus, à glória (2.10,11). O advento de Cristo, o filho messiânico de Deus, é o elemento central da provisão de Deus para as bênçãos familiares escatológicas de seu povo. Portanto, a bênção familiar do povo de Deus está especificamente relacionada com Jesus, porque Ele é o Filho messiânico de Deus. Como Messias, realiza as esperanças dos profetas. Esta realização inclui não somente os filhos de Deus, mas também as filhas de Deus (Is 43.6; 2 Co 6.18). A afirmação bem conhecida “não há macho, nem fêmea” é a explicação de Paulo para a declaração “Todos vós sois filhos de Deus” (Cl 3.26-28). Portanto, na linguagem bíblica, a expressão “filhos de Deus" não deve ser entendida como se referindo apenas ao gênero masculino, pois é uma expressão genérica.

0 chamado amoroso do Pai

Nem todos são filhos de Deus. Em João 8.44, Jesus disse aos judeus: “Vós pertenceis ao vosso pai, o diabo”. Semelhantemente, o lindo quadro do cuidado paternal de Deus no Salmo 68.5,6 é seguido pela clara advertência no v. 6 de que nem todos são filhos de Deus: “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus no seu santo lugar. Deus faz que o solitário viva em família, e liberta aqueles que estão presos em grilhões; mas os rebeldes habitam em terra seca”. Desde que nem todos são filhos de Deus, os que desejam ver o Reino de Deus, precisam “nascer de novo” Qo 3.3,7).

A solução para a triste situação do que não é filho de Deus começa com a graça do Pai. Ninguém pode reconhecer Jesus como o Filho, a menos que o Pai o revele (Mt 16.16.17), e a boa notícia do Evangelho é que o Pai sempre toma a iniciativa Qo 6.37, 44,45, 65). Como alguém pode aproximar-se de Deus? Por meio de Jesus, pois seu Pai “é misericordioso” (Lc 6.36), e se seu Pai celestial também o perdoar (Mt 6.14). O Pai é gracioso e perdoador. Sua misericórdia e seu amor são a raiz da filiação de seu povo Qr 31.9, 20; 1 Pe 1.3).

A ênfase do apóstolo Paulo sobre esse assunto é encontrada em Efésios 1.3-14. Dois dos maiores temas dessa doxologia são a adoção de filhos de Deus e a vontade e o propósito de Deus. Este segundo é expresso numa variedade de palavras: “vontade” (Ef 1.5,9,11), “propósito” (v. 11), “conselho” (v. 11), “beneplácito” (w. 5,9), “predestinados (w. 5,11) e eleitos (v.4). O efeito cumulativo é a ênfase no fato de que a adoção na família de Deus é construída nada mais nada menos que sobre o fundamento da própria pessoa do Pai (o significado básico da palavra “adoção” enfatiza a escolha do Pai que adota).

Adoção e regeneração

Duas metáforas são utilizadas nos textos bíblicos para descrever como a escolha amorosa do Pai se realiza e a pessoa que ainda não é filha de Deus une-se a Cristo e transforma-se num membro da família de Deus: adoção e regeneração. O termo “adoção”, que não aparece no Antigo Testamento e apenas cinco vezes no Novo Testamento (sempre nos escritos de Paulo, Rm 8.15,23; 9.4; G1 4.5; Ef 1.5), é tomado do contexto social e legal do mundo greco-romano. O vocábulo “regeneração”, que aparece primariamente nos escritos de João, é uma metáfora biológica.

A despeito das variações distintivas, ambos os termos deixam claro que a mudança envolvida é radical em toda a orientação da vida. A velha existência termina e começa uma nova vida. Da mesma maneira, as duas metáforas enfatizam que a mudança não é apenas radical — é também imediata. Nem o novo nascimento nem a adoção na família de Deus constituem um processo. Uma terceira característica comum da adoção e da regeneração é que a mudança que ocorre é divina. As pessoas tornam-se filhas de Deus, “por Deus” (G1 4.7). São nascidas de Deus (1 Jo 3.9; 4.7; 5.1.4.18). Especificamente, adoção e regeneração estão ligadas à obra do Espírito Santo Qo 3.5; G1 4.6).

Os resultados da filiação

Um dos aspectos mais impressionantes do uso bíblico da noção de filiação é a gama de resultados associados com ela. Isso é compreensível, pois a filiação atinge o centro da existência humana e estende-se a todas as áreas da vida.

1. Confiança no cuidado do Pai. O filho de Deus descansa na onisciência (Mt 10.29.30), na onipotência (Mc 14.36) e na misericórdia (Jo 16.26-28) do Pai. Estas três virtudes paternas são essenciais para a segurança do filho. Mateus 6.19-34 trata com várias perspectivas da relação dos filhos de Deus com os “cuidados” deste mundo: dinheiro, alimentos e vestimenta. Os w. 25-34 focalizam o problema da preocupação com as necessidades básicas de (1) sustento e (2) proteção. Em ambas as instâncias o clímax é “vosso Pai celestial” (Mt 6.26,32). O filho de Deus descansa na promessa de um Pai que conhece e se preocupa com suas necessidades e tem o poder para supri-las (veja também Jr 31.8,9; SI 68.5).

O fato de que os filhos de Deus chegam a essa condição “em Cristo” significa que sua vida presente envolve sofrimento no caminho da glória. “Somos… herdeiros de Deus e co-herdeiros (em virtude da filiação) de Cristo, se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8.17). Este sofrimento atual acontece sob o controle amoroso do Pai. Tal padecimento leva os filhos de Deus à glória, em conformidade com a imagem de Cristo, o Filho primogênito (Rm 8.18-30).

De fato, os sofrimentos da vida estão longe de ser sinais do abandono de Deus; frequentemente, representam dons para nossa disciplina e fortalecimento, dados pelo Pai que molda e edifica os filhos os quais ama. Isto está enfatizado em Provérbios 3.11,12, Deuteronômio 8.1-5 e principalmente Hebreus 12.3-11. Um dos resultados da filiação é a disciplina do Pai, “para nosso proveito” (Hb 12.10), para o “bem” (Rm 8.28) dos que são chamados para “serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8.29.30).

A confiança do filho em seu Pai para provisão, proteção e disciplina significa que ele não se preocupa, mas entrega-se a Deus. Esse tipo de fé, entretanto, não deve ser confundido com autoconfiança arrogante. Os filhos de Deus aprendem a lição do Salmo 103.13,14. O Pai celestial se compadece de seus filhos e lembra-se que “são pó”. O filho de Deus pensa a mesma coisa, reconhece sua fraqueza e confia no Senhor.

O corolário da confiança é a perseverança. O filho de Deus é chamado para trabalhar duro e jamais desistir (Hb 12.5-13; Rm 8.24,25). A confiança no Senhor resulta em serviço alegre, abnegado e perseverante ao Pai celestial (2 Co 1.2-5; Dt 1.29-31; Mt 5.9).


2. Intimidade. O filho de Deus é uma criatura chamada para um relacionamento íntimo e pessoal de abertura, interesse e afeição com o amoroso Pai celestial. Essa intimidade é vista de muitas maneiras na Bíblia, mas uma das mais significativas está relacionada com a oração.

(a) Oração ao Pai. O relacionamento íntimo do próprio Jesus com Deus expressava-se na maneira característica como se dirigia a Deus em oração como "Pai” (Lc 10.21; 22.42; 23.34,46 — Nota: maneira característica, mas não única. Estudos teológicos recentes deixam de lado a antiga alegação de que a referência de Jesus a Deus como “Pai” era léxica ou sintaticamente única). Na “Oração do Senhor”, Jesus ensina os outros filhos de Deus a orar: “Pai nosso” (Mt 6.9). Eles foram adotados na família de Deus (G1 4.5), e o Senhor enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações (Cl 4.6); por isso, por meio do Espírito Santo, também podem orar a Deus, e chamá-lo de “Pai” (Cl 4.6; Rm 8.15).

Esse tipo de relacionamento íntimo com o Pai celestial em oração representava (para Jesus) a antítese das fórmulas rituais impessoais da magia pagã (Mt 6.7). Oração não é uma arma de coação sobre os poderes do Universo. Oração é chegar à presença pessoal de Deus. A oração do filho de Deus também é a antítese da oração hipócrita dos religiosos que buscam seus próprios interesses (Mt 6.1-6). Jesus declara a onisciência do Pai e diz que o filho de Deus, o qual está seguro no Pai, não busca o louvor e a honra em outros. A cura para a oração hipócrita (e a hipocrisia em geral) é o fortalecimento da intimidade com o Pai celestial.

(b) Santidade fam iliar. A intimidade bíblica com o Pai celestial é uma comunhão segura e confortadora. Não é, entretanto, um relacionamento simples ou desprovido de desafios. A filiação bíblica traz não apenas bênçãos, mas também exigências. Em Deuteronômio 14.1, lemos: “Vós sois filhos do Senhor vosso Deus. Não fareis incisão alguma no vosso corpo, nem rapareis o cabelo em honra de algum morto”. Os israelitas tornaram-se filhos de Deus; por essa razão não podiam adotar os costumes religiosos de seus vizinhos pagãos. A família de Deus tem um estilo de vida diferente (Dt 32.5,6; Ml 1.6; Is 63.16; 64.8,9).

Semelhantemente, o Novo Testamento desenvolve as responsabilidades éticas dos cristãos no contexto da família de Deus. O Pai é o santo juiz que no futuro decidirá o destino eterno da humanidade (Mt 18.35; Mc 8.38; Lc 9.26). O chamado para a presente santidade está também enquadrado na linguagem da família de Deus: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas, para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus” (Fp 2.14-15). Em Hebreus 2.11-17, a união com Cristo e a condição de filho são desenvolvidas em conexão com a santificação; em 1 João 2.29 a 3.2, o filho de Deus é chamado para se purificar. Desta maneira, o modelo bíblico de filiação era radicalmente adverso das religiões helenistas ao redor, nas quais o termo filiação era um lugar comum, mas nunca estava associado a qualquer ética moral da mesma maneira que a Bíblia faz. As Escrituras enfatizam repetidamente que ser membro da família implica assumir responsabilidades familiares. “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” (Ef 5.1). "Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.48). A intimidade com o Deus da Bíblia proporciona segurança e exige santidade.


3. A liberdade dos filhos. A condição de filho é contrastada com a do escravo, para enfatizar a liberdade dos filhos de Deus. "Assim que já não és mais escravo, mas filho” (Cl 4.7; também Rm 8.21). A antiga vida era de cativeiro; a nova é de libertação. Assim como Israel foi solto do cativeiro para a filiação nacional, da mesma forma o cristão tornou-se livre para a condição de filho. Essa libertação é descrita particularmente como a libertação do medo. “Pois não recebestes o espírito de escravidão para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!” (Rm 8.15). Adoção produz confiança — e não medo. O filho de Deus é liberto do medo da morte (Rm 8.12-15; Hb 2.11-17). Hebreus 9.15 deixa claro que a razão por que o filho de Deus tem certeza de sua herança eterna como filho de Deus é a libertação do pecado. O medo da culpa foi tirado. O filho de Deus também é liberto de uma vida sem direção. A obra de Jesus (e do Pai), que liberta os filhos da escravidão e os torna filhos de Deus (Jo 8.31-37), é também a que determina o novo rumo em suas vidas (w. 37,47,55). A liberdade dos filhos é a libertação do pecado e da morte e a liberdade da vida da família de Deus.


4. A família de Deus. Ser filho de Deus é tornar-se membro da casa de Deus (1 Tm 3.15). Para os escritores bíblicos, a condição da liberdade de filhos não é a ideia ocidental moderna de autonomia. E uma liberdade encontrada somente num relacionamento com os outros membros da família de Deus, que significa uma casa unida, onde não existe lugar para o orgulho, intolerância e egoísmo. As barreiras raciais, culturais e sociais devem dar lugar à humildade, ao amor e ao interesse mútuo (Ef 2.18,19). Os “filhos de Deus pela fé” são os que são “batizados em Cristo” (G1 3.26,27) e, assim, foram incorporados à Igreja de Deus.

Com exceção de Judas, todos os cristãos do Novo Testamento referem-se uns aos outros como “irmãos”. Paulo o faz 133 vezes. “Irmão” é uma palavra que expressa profunda afeição pessoal e denota amizade, amor e comunhão na obra de Cristo (1 Co 8.11; 1 Pe 5.9; 19 vezes em Tessalonicenses). O povo de Deus foi tirado do meio do paganismo, para viver separado, amar os irmãos (1 Pe 2.17) e, nesse amor fraterno, ter uma amostra do que é o banquete eterno (Jr 3.19; Lc 20.34, 36; Rm 8.23; Ap 19.9). A-M-

Este estudo foi elaborado pela equipe do Portal Personagem Bíblico a partir de pesquisa bíblica, tendo como uma das referências o verbete “Filiação” da obra Quem é Quem na Bíblia Sagrada (Editora Vida).

CONTINUE SUA LEITURA

Mais em Contexto Histórico

Contexto histórico

Rei e reinado

“Pois Deus é o Rei de toda a terra; cantai-lhe salmos de louvor” (SI 47.7). Uma verdade fundamental ensinada na Bíblia — talvez a mais…

Ler conteúdo
Contexto histórico

Profetas e profecias

No Antigo Testamento, os profetas eram mensageiros de Deus. Como pessoas que falavam em nome do Senhor, referiam-se aos interesses humanos a partir da perspectiva…

Ler conteúdo
Contexto histórico

Os Nicolaítas

Grupo herético que entrou em íntimo contato com algumas das igrejas da Ásia Menor no final da Era Apostólica. Essa seita é mencionada diretam ente…

Ler conteúdo