Profetas e profecias
No Antigo Testamento, os profetas eram mensageiros de Deus. Como pessoas que falavam em nome do Senhor, referiam-se aos interesses humanos a partir da perspectiva divina. Tinham uma dupla responsabilidade em suas pregações. Por um lado, apresentavam um nítido quadro das ambições humanas, do desafio ao Senhor e da depravação. Neste contexto, os profetas anunciavam o arrependimento e falavam sobre a iminência do juízo de Deus. Por outro lado, visualizavam uma humanidade transformada e uma nova ordem mundial (o Reino de Deus). Com esse objetivo, encorajavam os piedosos, pois os confortavam com a promessa da restauração, exortando-os a perseverar na busca da piedade.
Os profetas, como arautos do Reino, formam uma corrente contínua de Moisés até João Batista. O curso dessa “correnteza” é alterado durante a história da redenção em junções cruciais, ou seja, “as correntes mais rápidas”.
Moisés
Moisés, o início da correnteza, é a “nascente” do movimento profético. Foi o mediador da Aliança do Sinai (mosaica) (Êx 9.3-8; 20.18,19) e o veículo de comunicação escolhido por Deus: “Boca a boca falo com ele… ele contempla a semelhança do Senhor” (Nm 12.6-8; vejaDt 18.18). O Senhor separou Moisés como “servo” (Êx 14.31; Dt 34.5; Js 1.1,2) — um relacionamento de amizade e de confiança entre o superior e um subalterno. Ele experimentava o privilégio de uma comunhão íntima com Deus. “Falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo” (Ex 33.11). Foi o servo fiel da administração que durou até o advento do Filho de Deus (Hb 3.1-5). Como nascente da tradição profética, Moisés testemunhou mais da autorevelação da glória de Deus do que qualquer outra pessoa no Antigo Testamento (Ex 33.18; 34.29-35). Sempre que era confrontado, ele questionava o Senhor. Israel podia encontrar conforto, graça e bênção porque em Moisés os papéis de mediador da aliança e de intercessor (Ex 32.1— 34.10; Nm 14.13-25) estavam sempre juntos. Orava por Israel, falava ousadamente como advogado do povo na presença do Senhor e encorajava a que olhassem além dele, para Deus.
A principal diferença entre Moisés e os demais profetas que vieram depois dele está na maneira direta pela qual o Senhor falava com ele. Moisés, como precursor, foi o primeiro a receber, escrever e ensinar sobre a revelação de Deus. Essa manifestação estendia-se a todas as áreas da vida, inclusive as leis de santidade, pureza, as cerimônias, a vida familiar, o trabalho e a sociedade. Embora ele ainda não conhecesse a revelação de Deus em Cristo, viu a "glória” de Deus (Ex 34.29-35). Moisés, o maior de todos os mensageiros antes da encarnação de Jesus, falou sobre o ministério de outro profeta (Dt 18.15-22). Foi testemunha de Deus para Israel de que um cumprimento ainda maior os aguardava: “Moisés, na verdade, foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” (Hb 3.5). A natureza desse futuro não era nada menos do que o resto que viria (Hb 4.1-13) em Jesus Cristo, por causa de quem Moisés também sofreu (Hb 11.26). A esperança escatológica da revelação mosaica não é nada menos do que a presença de Deus no meio de seu povo.
Moisés percebeu dolorosamente que Israel não entraria naquele descanso, por causa da desobediência e rebelião do povo (Dt 4.21-25). Ainda assim, falou sobre uma nova dispensação, iniciada pela graça de Deus, de liberdade e fidelidade (Dt 4.29-31; 30.5-10: 32.39-43). Moisés olhou adiante, para uma época de paz, tranquilidade e plena alegria na presença de Deus, de bênção e proteção na Terra Prometida (Dt 12.9,10; 25.19; Êx 33.14; Js 1.13). Essa esperança, fundamentada na fidelidade de Deus (Dt 4.31), é expressa mais claramente no testemunho final de Moisés, “o Hino do Testemunho” (Dt 32), no qual ele recitou os atos de amor de Deus em favor de Israel (w. 1-14), advertiu contra a rebelião e o sofrimento que isso acarretaria (w. 1535) e confortou os piedosos com a esperança da vingança do Senhor sobre os inimigos e o livramento do remanescente de Israel e das nações (w. 36-43). Fez até uma alusão à grandeza do amor de Deus pelos gentios! (w. 36-43; Rm 15.10)!
O significado escatológico do hino de Moisés reverbera nas mensagens proféticas de juízo e esperança, justiça e misericórdia, exclusão e inclusão, vingança e livramento. A administração mosaica, portanto, nunca tencionou ser um fim em si mesma. Era apenas um estágio na progressão do cumprimento da promessa, aliás, um estágio importantíssimo! O apóstolo Paulo confirmou a graça de Deus na aliança mosaica (Rm 9.4,5). Veja também Moisés e Aliança.
Profetas semelhantes a Moisés
A possibilidade para revelações adicionais abriu o “cânon” mosaico para mais uma revelação de Deus. Moisés não era o fim da manifestação divina, mas sim o início do movimento profético. Deu instruções específicas sobre a função, o papel e a mensagem dos profetas, os quais comporiam uma classe de oficiais teocráticos, por meio dos quais Deus guiaria a comunidade da aliança, junto com os sacerdotes (e levitas), os reis (Dt 17.14-20) e a liderança tribal e local (anciãos, líderes e príncipes).
Os profetas, como os sacerdotes e os reis, foram chamados e escolhidos pelo Senhor como guardiães de seu reino. Os profetas, entretanto, diferentemente dos sacerdotes e das dinastias reais, não tinham direitos hereditários. Cada um deles recebia um chamado distinto. Como oficiais no Reino de Deus, eram convocados para apascentar o povo. Os profetas em Israel submetiam-se a sete critérios estabelecidos na revelação mosaica:
1. Como israelita, o profeta partilhava totalmente a herança da aliança, a manifestação divina e as promessas; portanto, a nova revelação precisava ser coerente com a mosaica (Dt 13.1-5). Isso foi verdadeiro no caso de todos os profetas, inclusive o Senhor Jesus (Mt 5.17-19).
2. O profeta recebia um chamado específico de Deus. Como Moisés, sabia sem sombra de dúvida que fora enviado para transmitir uma mensagem enviada pelo grande Rei.
3. O Espírito Santo dava poder ao servo de Deus para suportar as pressões causadas por seus contemporâneos, porque falava a Palavra de Deus e cumpria sua tarefa fielmente. O poder do Espírito, que caracterizava o ministério de Moisés (Nm 11.17), também estava presente na vida dos profetas. Alguns percebem aqui uma mudança visível, quando o Espírito “os levantava” (Ez. 3.12, 14; 8.3; 11.1, 24; 43.5), ou “descia sobre eles” (1 Sm 19.20; 2 Cr 20.14; Ez 11.4). Todos eles experimentaram uma presença que lhes dava novo poder. O sentimento inquestionável da presença do Espírito não deixava dúvidas de que Deus havia falado e explicava o sentimento profético de uma compulsão interior, como no caso de Amós: “Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas… Falou o Senhor Deus, quem não profetizará” (Am 3.7,8b).
4. O profeta declarava a Palavra de Deus como seu porta-voz. Não servia a seus próprios propósitos, mas ao Senhor (Dt 18.18,19; Êx 4.10-16; 7.1).
5. A autoridade do profeta não residia em suas credenciais pessoais, mas no privilégio de falar em nome do Senhor (Dt 18.19,20,22).
6. O profeta era semelhante a Moisés no sentido de que ele fora um bom pastor para Israel, pois amava o povo e intercedia em favor dele.
7. O verdadeiro profeta faria uma demonstração para comprovar que o Senhor o enviara (Êx 3.12; 4.8; Dt 13.2). O “sinal” também testemunhava a favor da autenticidade de sua mensagem. Embora as comprovações fossem diversas — um milagre (1 Rs 13.5; 2 Rs 20.9); a designação de um tempo específico (1 Sm 12.16-19; Is 7.14-25); um evento especial (1 Sm 10.3-7; veja w. 9-11; 1 Rs 13.3-5; 2 Rs 19.29); o próprio profeta (Is 8.18; 20.3; Ez 24.24); ou uma lição objetiva (Ez. 4.3) — , significavam que a missão do profeta era a serviço do Senhor e que ele era o porta-voz de Deus. Quer o profeta desse um sinal quer não, a veracidade de sua mensagem era comprovada pelo seu cumprimento (1 Rs 13.26; 16.12; 2 Rs 24.2; Jr 28.15-17; Ez 33.33).
O povo de Deus tinha a obrigação de “provar” a nova revelação pelo padrão (“cânon”) da revelação anterior e pela verificação do “sinal” mostrado pelo profeta (Dt 13.1-5; 18.20-22). A veracidade da palavra profética era verificada também pelas gerações posteriores, como Ezequiel escreveu: “Mas quando vier isto — e aí vem — então saberão que houve no meio deles um profeta” (Ez 33.33).
Samuel: o modelo do papel profético
Samuel foi o elo de ligação entre a época de Moisés/Josué e a de Davi/Salomão. Depois da morte de Moisés, Israel teve a garantia de que o Senhor estava com eles, por meio da revelação que transmitiu a Josué (Js 3.7; 4.14; 6.27). Pouco antes de sua morte, ele exortou os líderes de Israel a permanecer fiéis ao Senhor (Js 23.111), pois não tinha condições de conduzir o povo a um estado de “descanso”, devido à sua idade avançada (Js 13.1). A despeito das repetidas advertências feitas por Moisés (Deuteronômio), Josué (Js 23 e 24) e pelos servos de Deus (Jz 2.1-5; 6.7-10), Israel rebelou-se contra o Senhor e muitas vezes experimentou o abandono divino. Deus colocara a lealdade do povo à prova (Jz 2.22 a 3.1), mas Israel falhou individualmente, como tribo e como nação. Desde que o descanso que começaram a experimentar sob a liderança Josué (Js 22.4) fora condicionado à fidelidade para com a aliança (Js 22.5), o Senhor suspendeu o cumprimento da promessa de descanso (Jz 2.3, 21; SI 95.11). Israel alcançara um ponto extremamente baixo na história da redenção.
Samuel é considerado o primeiro profeta de uma nova ordem (At 3.24). O Senhor o chamou para ser um mensageiro (1 Sm 3.1-14) e nessa condição ele recebeu o espírito de Moisés (Jr 15.1). Foi reconhecido como “servo” de Deus, por meio de quem o Senhor falou com seu povo individualmente (1 Sm 9.6) e como nação (1 Sm 7.2-4); 8.1-22). O ministério profético de Samuel foi tão exclusivo que todas as tribos assim ouviram sobre o homem de Deus: “E todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor” (1 Sm 3.20). Ele se tornou o modelo para os profetas como o guardião da teocracia. Demonstrou uma preocupação pastoral por todas as doze tribos (1 Sm 4.1), trouxe avivamento para Israel (1 Sm 7.6; 12.18,19), liderou o povo na adoração e orientou as tribos com seus conselhos. Também levou Israel a experimentar um período de estabilidade internacional, paz nacional e prosperidade.
Em sua posição como porta-voz de Deus para o povo e a teocracia, Samuel definiu o papel dos profetas como guardiães desse sistema de governo. Como Moisés e Josué, em seu discurso de despedida, Samuel exortou os israelitas a permanecer fiéis ao Senhor, ou as maldições de Deus cairiam sobre eles (1 Sm 12.1-25). O salmista colocou-o ao lado de Moisés e de Arão, como sacerdote de Deus: “Moisés e Arão estavam entre os seus sacerdotes, Samuel entre os que invocavam o seu nome; clamavam ao Senhor, e ele os ouvia” (SI 99.6).
Elias: o defensor da aliança
Elias, o tisbita, também viveu em outro período de crise. Acabe, rei de Israel, casara-se com Jezabel, princesa fenícia, a qual introduzira o culto a Baal e uma cultura pagã em Israel. Este monarca seguia as ambições políticas do pai, Onri, o qual tornara Israel [reino do Norte] uma potência militar de renome internacional. A administração de Acabe concedera ao país um grande futuro de prosperidade econômica e um poderio bélico, pois o tornara um “poder” entre as nações. O povo rejeitara a Aliança e o meio da revelação e se apaixonara por um novo estilo de vida.
Elias ocupa uma posição distinta na história da redenção. Embora não tenha escrito um livro profético, é um dos maiores profetas do Antigo Testamento e ocupa um lugar especial próximo a Moisés. Estabeleceu o curso dos profetas “clássicos”. As histórias a seu respeito, registradas em 1 Reis 17 a 21 e 2 Reis 1.1 a 2.11, mostram-nos um dos maiores personagens da Bíblia.
Sozinho e exausto, perseguido depois da experiência no monte Carmelo (1 Rs 18), Elias subiu o monte Horebe (19.7), onde Moisés recebera a revelação e vira a glória do Senhor. O retorno dele ao monte Sinai marcou o fim de uma era caracterizada pela paciência divina e o início de outra, consolidada pela purificação! Israel mostrara-se uma nação endurecida pela incredulidade. A situação mudara dramaticamente desde os dias em que Moisés incessantemente rogava em favor do povo. Diferente dele, que intercedia (Êx 31 a 34), Elias acusava os israelitas de ser infiéis. Fez três acusações e um lamento pessoal sobre a nação: “(i) deixaram a tua Aliança, (ii) derrubaram os teus altares, e (iii) mataram os teus profetas à espada, (iv) Só eu fiquei, e agora estão tentando matar-me também” (1 Rs 19.10, 14). O Senhor se manifestou a Elias “numa voz calma e suave” (1 Rs 19.12), à qual o profeta respondeu com um lamento, pois sentiu a presença de Deus.
Elias representou o começo de uma longa linha de profetas que acusaram o povo de Deus de ter desfeito a aliança e que pronunciaram o juízo de Deus sobre Israel. Embora Elias dirigisse sua mensagem diretamente ao rei, seu ministério estendeu-se além de Acabe, para todo o Israel. Foi o primeiro defensor da aliança de Deus, pois acusou Israel por seu fracasso em viver de acordo com as expectativas do pacto (1 Rs 18.21). A questão não era mais entre o profeta e o rei, mas, sim, entre ele e o povo, como foi nos dias de Moisés e Samuel. O profeta não mais advertia nem ameaçava — pronunciava o julgamento e a realidade das maldições da aliança.
Como “defensores da aliança”, os profetas ficavam entre o Senhor e o povo. Eles ouviam os conselhos divinos, enquanto observavam o movimento do Todo-poderoso na história. O profeta de Deus era tanto “de seu tempo” como “fora de seu tempo”. Como “de seu tempo”, a mensagem profética precisava ser compreendida dentro de seu contexto histórico, geográfico e cultural. Como “fora de seu tempo”, o profeta falava de eventos pertinentes ao estabelecimento do Reino de Deus, ao juízo dos ímpios e à vindicação do remanescente justo.
Elias foi dos principais profetas que participaram da história da redenção humana. O Espírito Santo deu-lhe poder e uma preocupação quanto à condição espiritual de Israel. Ele almejava por um povo cujo coração fosse leal ao Senhor, enquanto discernia a necessidade do julgamento e da purificação (veja Ml 4.5,6). Seu ministério estava alinhado com o de Moisés e com o de todos os profetas que serviram depois dele como “defensores da aliança”, inclusive os literários ou clássicos. A vocação de Elias também foi peculiar a Amós, Oséias, Isaías, Jeremias, Ezequiel e a todos os outros profetas que vieram antes, durante e depois do exílio. João Batista foi o que mais se identificou com ele (Ml 4.5; Mt 11.14; 17.10-13), mas os apóstolos também assimilaram o seu ministério, que continua presente com todo aquele que proclama fielmente a Palavra de Deus.
Interpretação dos profetas
O que estuda e interpreta os escritos proféticos deve ser sensível ao contexto histórico, à linguagem, às metáforas e à imagem literária. Os profetas eram seres humanos reais que compartilhavam suas vidas com seus contemporâneos dentro de um contexto cultural. Receberam uma visão de Deus, mas falavam sobre isso numa linguagem que as pessoas pudessem compreender. Os profetas pintaram imagens multiformes que representavam os atos do Senhor desde os seus dias até a inauguração plena do Reino de Deus.
A palavra profética tem uma ligação com o contexto histórico do profeta, mas sua relevância vai muito além das questões sobre as quais ele falou e como as profecias se cumpriram. Os oráculos proféticos são a Palavra de Deus para cada nova geração em seu próprio contexto histórico. Cada geração pode encontrar sua identidade na história e na progressão do cumprimento enquanto vive na esperança do grande futuro que Deus tem preparado para seu povo. Cada geração deve envolver-se na interpretação e na aplicação da palavra profética, de maneira que isso também contribua para o progresso da redenção.
A interpretação dos escritos proféticos requer um entendimento sobre o universo social de Israel e uma sensibilidade em relação aos recursos que Deus usa para apresentar sua verdade mediante a linguagem e as imagens humanas. Isaías, por exemplo, anunciou a grandeza da salvação usando imagens de vitória: luz, brilho e alegria (Is 51.4; 58.8,10; 59.9; 60.1,3,19,20). Situou sua metáfora dentro da linguagem historicamente condicionada de um povo vitorioso que recebera o reconhecimento das nações (Is 11.11-16; 14.2; 49.22-26; 60.4). Os povos presentearão os remidos com objetos preciosos (Is 60.4-16), trarão tributos a Jerusalém (Is 23.17,18; 60.13-16; 66.20) e servirão aos eleitos (Is 61.4-6).
Os profetas empregaram formas distintas de discurso profético e recursos da retórica. Viviam num ambiente cultural no qual as formas oral e literária eram as maneiras comuns de comunicação. Transmitiam as mensagens de Deus usando fórmulas que seus contemporâneos reconheciam como "proféticas”; eram “poetas com uma mensagem”. Com criatividade, usavam a herança cultural e a revelação de Israel, enquanto se moviam por todas as suas tradições: teofania, guerra, lei, sabedoria e culto.
A profecia clássica foi primeira e principalmente uma expressão oral, ao passo que as formas literárias foram secundárias, embora o processo de transição da forma oral para a escrita esteja longe de ser entendido. Alguns discursos provavelmente foram escritos muito antes do pronunciamento original. Outros circularam possivelmente entre um grupo de discípulos. Nos casos em que houve um lapso de tempo significativo, o profeta provavelmente resumiu ou parafraseou seus oráculos e deu um polimento em seu trabalho, transformando-o numa obra-prima. Com a queda de Samaria e Jerusalém, alguns livros proféticos foram editados em condições extremamente desfavoráveis. A profecia de Jeremias, por exemplo, resulta de vários estágios de coleta e edição, o que resultou numa “antologia de antologias” completada durante o exílio.
Os profetas proclamavam uma mensagem de transformação num contexto histórico de pessoas complacentes com suas habilidades e realizações. Falavam do iminente julgamento de Deus sobre a humanidade — inclusive Israel e Judá — porque todo o ser humano havia-se rebelado contra o Senhor, o Rei da glória. Anunciavam o advento do Reino do Senhor, o juízo e a transformação da criação.
A visão profética do Reino glorioso de Deus arruinava a realidade das estruturas e dos reinos humanos, mas também demonstrava a visão de um remanescente que vivia em harmonia com o Senhor. Via uma antítese radical entre Deus e o homem, o Criador e a criatura, o Reino de Deus e os governos humanos e a revelação e a religião. A distinção entre revelação e religião é fundamental no entendimento da natureza do papel profético e na interpretação da mensagem profética.
O estudo da interpretação profética envolve escatologia. Os profetas anunciaram o encerramento de uma época e a abertura de outra. A nova dispensação no desenvolvimento da redenção tem elementos de continuidade com o passado, pois os novos atos da graça fluem das promessas de Deus. Apesar disso, a nova dispensação tem também elementos originais, pois o Senhor determina um cumprimento ainda maior de suas promessas. Os profetas apontavam para além de seu próprio tempo, a um momento na eternidade quando Deus cumprirá todas as suas promessas e alianças. Estará com seu povo e governará perpetuamente sobre ele junto com seu Messias. A mensagem profética escatológica é teocêntrica, com seu foco no advento do grande Rei, a inauguração do período davídico (messiânico), o derramamento do Espírito Santo, a renovação da aliança, a restauração do povo de Deus, a união dos judeus e gentios, a glória e a alegria associadas com a presença do Senhor, o júbilo do povo de Deus, a restauração de Canaã, de Jerusalém e toda a Terra e a remoção do mal, da maldição, da morte e de qualquer outra forma de julgamento divino.
O Novo Testamento confirma a esperança profética por meio do testemunho de que em Jesus Cristo as promessas de Deus se cumpriram. Consequentemente, Jesus é o "foco” da esperança, em quem a realidade e o cumprimento de todas as promessas do Senhor estão garantidos. A salvação sobre a qual os profetas falavam (1 Pe 1.10-12) não pode ser encontrada em nenhum outro além de Jesus Cristo. Somente o Pai, entretanto, sabe a natureza, o método e o tempo da plenitude da salvação (At 1.7). Desde que o cumprimento é em Jesus Cristo (2 Co 1.20), o pleno cumprimento das promessas é o objeto da esperança dos santos tanto do Antigo como do Novo Testamento. Ambos testemunham sobre “a salvação” vindoura e as afirmações exclusivas de Jesus de que Ele é o meio pelo qual o Pai inaugurará plenamente as promessas e alianças, inclusive o reino de Davi.
No advento de Cristo, a inauguração do Reino mostrou mais claramente sua dimensão escatológica. Os evangelhos apresentam a pregação e o ministério de Jesus da perspectiva do Cristo ressurrecto, o qual voltará para cumprir a Lei de Moisés e a palavra profética. Integram isso com o ensino de Jesus sobre o futuro — o juízo, os eleitos, a ressurreição, o crescimento e a alegria do Reino com a esperança profética. O passado, o presente e o futuro se unem em Cristo. O Senhor explicou sua missão quando utilizou esses escritos do Antigo Testamento. Disse aos discípulos: “Era necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44). Dessa passagem aprendemos que o que está escrito no AT tem seu foco apropriado em Jesus Cristo. Ao ler o Antigo Testamento, o cristão deve prestar cuidadosa atenção à relação entre AT e o Senhor Jesus Cristo. Cada divisão do Antigo Testamento relaciona-se com nosso Senhor, inclusive os escritos proféticos. Essas Escrituras são a Palavra de Deus para seu povo, e a autoridade dessa mensagem não foi diminuída com o advento de Cristo. A própria base para a pregação apostólica foi o Antigo Testamento. Em Jesus o futuro é cheio de esperança, porque agora Ele está sentado à direita do Pai. O testemunho do Antigo e do Novo Testamentos encontra seu foco em Cristo, por meio de quem o Pai completará seu plano de redenção (2 Co 1.20). Jesus é aquele de quem os profetas falaram (Rm 1.2; 16.26); Ele é o Alfa e o Ômega (Ap 22.12-14).
Sumário
O ministério profético é uma continuação direta da revelação do Senhor por meio de Moisés, a “nascente” da revelação do Antigo Testamento. Ele desejava que o povo de Deus formasse uma “contracultura”, ou seja, uma nova comunidade transformada pela revelação divina e pelo Espírito. A mensagem profética era coerente com a revelação mosaica, pois aplicava mais explicitamente as bênçãos e maldições sobre as quais Moisés falara e complementava os escritos canônicos existentes com novas revelações do Senhor.
Todos os pronunciamentos proféticos seriam testados pela revelação de Deus a Moisés. Os profetas aplicaram e expandiram mais os elementos essenciais da revelação mosaica: os julgamentos e bênçãos, o chamado para a fidelidade à aliança e a esperança no grande futuro preparado para o povo de Deus. Como Moisés, os profetas foram chamados para um compromisso com o Senhor que levaria a um “conflito com a civilização”.
Um grande desenvolvimento aconteceu com Samuel, o qual foi o modelo do movimento profético. Declarou a Palavra do Senhor para todo o Israel e ungiu seus dois primeiros reis. Como guardião da teocracia, liderou o povo de Deus num avivamento e num período de paz. Samuel é o modelo dos profetas na maneira como preservou a teocracia estabelecida na aliança de Deus no monte Sinai. Samuel, o guardião da aliança, falou a Palavra de Deus para o rei e também ao povo. Seu ministério consistia na intercessão em favor de Israel, na aplicação das maldições e das bênçãos da aliança mosaica e em uma vida piedosa. Samuel foi também um profeta escatológico, pois almejou uma maior sensibilidade espiritual, discernimento e um descanso que duraria mais do que ele próprio.
Os profetas depois de Samuel transmitiram a Palavra de Deus com poucos resultados aparentes. Israel e Judá rapidamente adotaram as práticas da magia dos povos pagãos. Adaptaram-se à adoração de muitos deuses e adulteraram a revelação do Senhor. Finalmente Elias se levantou e trouxe uma demanda da aliança de Deus no monte Sinai. Desse ponto em diante, os profetas se afastaram cada vez mais dos reis e voltaram-se para o povo, com o propósito expresso de chamar um remanescente.
A mensagem dos profetas clássicos inclui a declaração da demanda legal de Deus contra seu povo, um anúncio do juízo, um chamado ao arrependimento e a proclamação das boas novas do livramento do Senhor. Afirmaram que Deus é fiel em seu compromisso de renovar as alianças, conduzir as pessoas ao seu Reino e cumprir suas promessas. Os profetas eram defensores do pacto nomeados pelo Senhor, mas mesmo nessa função não cessavam de orar para que o povo de Deus se voltasse ao Todo-poderoso, experimentasse uma transformação operada pelo Espírito e usufruísse das bênçãos de Reino. Veja também Aliança. w .a .v g .
Este estudo foi elaborado pela equipe do Portal Personagem Bíblico a partir de pesquisa bíblica, tendo como uma das referências o verbete “Profetas e profecias” da obra Quem é Quem na Bíblia Sagrada (Editora Vida).
