Marta e Maria: as irmãs de Betânia que receberam Jesus
Marta e Maria eram irmãs de Lázaro e moravam em Betânia, povoado próximo de Jerusalém. Os Evangelhos registram a hospitalidade dessa família, sua dor diante da morte de Lázaro e a alegria de recebê-lo novamente depois que Jesus o ressuscitou. João afirma expressamente que Jesus amava Marta, Maria e Lázaro (Jo 11.5).
As duas irmãs demonstraram sua fé de maneiras diferentes. Marta aparece recebendo Jesus, cuidando do serviço e conversando com ele sobre a ressurreição. Maria é apresentada ouvindo seus ensinamentos, chorando aos seus pés e ungindo-o com um perfume precioso. Esses episódios nos ajudam a conhecer suas atitudes, embora a Bíblia não forneça uma descrição completa da personalidade de cada uma.
A família de Betânia
Betânia ficava a cerca de quinze estádios de Jerusalém, aproximadamente três quilômetros (Jo 11.18). Era ali que viviam os três irmãos.
A Bíblia não informa o nome de seus pais, a idade deles nem se Marta ou Maria eram casadas. Também não devemos confundir Maria de Betânia com Maria Madalena. Os Evangelhos as apresentam em contextos distintos e não afirmam que fossem a mesma pessoa.
O lar dessa família foi um dos lugares onde Jesus encontrou acolhimento. Sua relação com os irmãos aparece especialmente em Lucas 10.38-42, João 11 e João 12.1-8.
Marta recebe Jesus
Lucas relata que, durante uma viagem, Jesus entrou em uma aldeia e foi recebido por Marta em sua casa. Maria, sua irmã, sentou-se aos pés do Senhor para ouvir sua palavra (Lc 10.38-39).
Marta estava ocupada com os muitos serviços da recepção. Receber hóspedes exigia trabalho, e sua disposição de acolher Jesus era uma atitude boa. A hospitalidade é valorizada nas Escrituras e recomendada à Igreja (Rm 12.13; Hb 13.2).
Entretanto, naquele momento, Marta ficou sobrecarregada com os preparativos. Aproximou-se de Jesus e perguntou se ele não se importava que sua irmã a deixasse servir sozinha. Depois, pediu que mandasse Maria ajudá-la (Lc 10.40).
Jesus respondeu com uma correção cuidadosa. Chamando-a pelo nome, mostrou que ela estava inquieta e preocupada com muitas coisas. Maria havia escolhido a boa parte ao permanecer ouvindo sua palavra (Lc 10.41-42).
O problema não era o serviço em si, mas a preocupação que estava impedindo Marta de aproveitar a presença do Senhor. Mais tarde, João volta a mencionar Marta servindo, sem registrar qualquer repreensão por isso (Jo 12.2).
Seu exemplo nos ajuda a examinar como servimos. Podemos assumir tantas tarefas que deixamos de ouvir a Palavra, descansar e cuidar de nossa comunhão com Deus. O serviço cristão precisa ser sustentado por essa comunhão.
Maria ouve a Palavra
Ao sentar-se aos pés de Jesus, Maria assumiu a posição de alguém disposto a aprender. Lucas destaca que ela ouvia a palavra do Senhor (Lc 10.39).
Sua atitude foi aprovada por Jesus. Naquela ocasião, ela reconheceu o valor de permanecer atenta ao que ele ensinava.
Isso não significa que Maria nunca trabalhasse ou que as responsabilidades da casa fossem sem importância. O episódio trata daquela situação e mostra a prioridade de ouvir o Senhor.
Para nós, o ensino é claro: precisamos reservar atenção à Palavra de Deus. A fé não amadurece apenas pela participação em atividades. Precisamos conhecer o que Cristo ensina e colocar seus ensinos em prática (Tg 1.22).
A enfermidade e a morte de Lázaro
Em outra ocasião, Lázaro adoeceu. As irmãs enviaram uma mensagem a Jesus, informando que aquele a quem ele amava estava enfermo (Jo 11.1-3).
Ao receber a notícia, Jesus permaneceu mais dois dias no lugar onde estava. Depois, partiu para a Judeia. Quando chegou, Lázaro já estava no sepulcro havia quatro dias (Jo 11.6-17).
Marta e Maria conheciam o amor de Jesus, mas ainda assim enfrentaram a perda do irmão. O relato mostra que ser amado pelo Senhor não nos livra de toda enfermidade, tristeza ou morte.
Também não devemos concluir que a demora de uma resposta seja prova de indiferença divina. Naquele acontecimento, Jesus revelaria sua glória de uma maneira que as irmãs ainda não compreendiam (Jo 11.4,40).
A confissão de fé de Marta
Quando soube que Jesus estava chegando, Marta foi encontrá-lo, enquanto Maria permaneceu em casa. Ao vê-lo, disse que, se ele estivesse ali, seu irmão não teria morrido. Acrescentou, porém, que sabia que Deus lhe concederia o que pedisse (Jo 11.20-22).
Suas palavras expressam a dor da perda e a confiança que ainda depositava no Senhor. Jesus lhe disse que seu irmão ressuscitaria. Marta respondeu que sabia da ressurreição no último dia (Jo 11.23-24).
Foi nessa conversa que Jesus declarou ser a ressurreição e a vida e afirmou que aquele que crê nele viverá, ainda que morra (Jo 11.25-26).
Marta respondeu com uma das importantes confissões de fé registradas nos Evangelhos: reconheceu Jesus como o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo (Jo 11.27).
A mulher lembrada pela preocupação com o serviço também deve ser lembrada por essa declaração. Sua história não pode ser resumida ao momento em que foi corrigida. Ela ouviu Jesus e confessou quem ele era.
Maria encontra Jesus em meio ao luto
Depois da conversa, Marta voltou e chamou Maria em particular, dizendo que o Mestre havia chegado e a chamava. Maria se levantou depressa e foi ao seu encontro (Jo 11.28-29).
Ao chegar, lançou-se aos pés de Jesus e disse, como sua irmã, que Lázaro não teria morrido se ele estivesse presente. Ela chorava, e as pessoas que a acompanhavam também choravam (Jo 11.32-33).
Diante daquela dor, Jesus se comoveu e chorou (Jo 11.33-35). Suas lágrimas revelam sua compaixão. Mesmo sabendo que ressuscitaria Lázaro, ele não tratou o sofrimento daquela família com frieza.
Esse episódio nos permite apresentar a Deus nossa tristeza sem fingimento. Chorar não é, por si só, falta de fé. As irmãs buscaram Jesus com a dor que carregavam, e ele as acolheu.
A ressurreição de Lázaro
Jesus foi ao sepulcro e mandou retirar a pedra. Marta observou que o corpo já apresentava sinais de decomposição, pois havia quatro dias que Lázaro morrera. Jesus a fez lembrar de que, se cresse, veria a glória de Deus (Jo 11.38-40).
Depois de orar ao Pai, chamou Lázaro para fora. O homem que estivera morto saiu, ainda envolvido nas faixas do sepultamento. Jesus ordenou que o desatassem e o deixassem ir (Jo 11.41-44).
Marta e Maria receberam seu irmão de volta. Muitos dos que estavam presentes creram em Jesus ao ver o que ele havia feito (Jo 11.45).
A ressurreição de Lázaro foi um sinal do poder de Cristo sobre a morte. Isso não significa que todo luto terminará com a volta imediata da pessoa falecida. Nossa esperança está na promessa de Jesus de ressuscitar os que lhe pertencem e lhes conceder a vida eterna (Jo 6.40; 1Ts 4.13-18).
A ceia em Betânia
Seis dias antes da Páscoa, Jesus voltou a Betânia. Ali lhe ofereceram uma ceia. Marta servia, e Lázaro estava entre os que se assentavam à mesa com ele (Jo 12.1-2).
Essa breve informação sobre Marta é significativa. Ela continuava servindo, e o texto não apresenta seu trabalho como um problema. A correção recebida anteriormente não desvalorizava sua disposição de cuidar das pessoas.
Durante a refeição, Maria tomou uma grande quantidade de perfume de nardo puro, muito precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos. A casa ficou cheia do perfume (Jo 12.3).
Seu gesto demonstrou honra e dedicação ao Senhor. Jesus o relacionou à preparação para seu sepultamento (Jo 12.7). A passagem não explica quanto Maria compreendia sobre a proximidade da morte de Cristo, mas deixa claro o significado que ele atribuiu àquela ação.
A crítica de Judas e a resposta de Jesus
Judas Iscariotes questionou o uso do perfume. Disse que poderia ter sido vendido por trezentos denários e o valor entregue aos pobres. João esclarece, contudo, que sua preocupação não era sincera: Judas era ladrão e retirava dinheiro da bolsa que lhe fora confiada (Jo 12.4-6).
Jesus defendeu Maria e chamou a atenção para a oportunidade daquele momento. Sua presença física entre os discípulos caminhava para o fim, pois sua morte estava próxima (Jo 12.7-8).
Essa resposta não diminui o dever de socorrer os necessitados. O cuidado com os pobres permanece como responsabilidade do povo de Deus (Dt 15.11; Gl 2.10). Naquela ocasião, Jesus expôs a falsidade da crítica de Judas e reconheceu o valor do gesto de Maria.
Também não devemos transformar essa passagem em exigência de ofertas extraordinárias para provar amor a Deus. A generosidade cristã deve ser voluntária, sincera e sem constrangimento (2Co 9.7).
O testemunho das duas irmãs
Marta e Maria foram amadas por Jesus. Uma recebeu correção quando a ansiedade tomou conta de seu serviço; a outra foi defendida quando sua atitude de dedicação foi criticada.
Não há fundamento para comparar Marta a Caim ou apresentá-la como alguém que tentava conquistar a salvação por obras. Tampouco precisamos colocar as irmãs em uma disputa. Os Evangelhos mostram que ambas recorreram a Jesus, sofreram a perda de Lázaro e testemunharam seu poder.
Marta nos ensina sobre hospitalidade, serviço e confissão de fé. Maria nos lembra da importância de ouvir a Palavra e honrar o Senhor. Juntas, suas histórias mostram que a vida cristã envolve aprender de Cristo, confiar nele durante o sofrimento e servir com amor.
A Bíblia não informa como foram os últimos anos dessas mulheres. O que registra é suficiente para nos aproximar de suas experiências: elas abriram espaço para Jesus em sua vida e descobriram, tanto à mesa quanto junto ao sepulcro, a verdade de suas palavras e a profundidade de seu amor.



