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Personagem Bíblico
PERSONAGEM BÍBLICO

Judas Iscariotes: o discípulo que traiu Jesus

Judas Iscariotes foi um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus. Acompanhou seu ministério, ouviu seus ensinamentos e recebeu a responsabilidade de cuidar do dinheiro do grupo. Apesar dessa convivência, entregou o Mestre às autoridades em troca de trinta moedas de prata (Mt 26.14-16).

Sua história contém advertências sobre a cobiça, a falsidade e a resistência à verdade. Também nos lembra de que a proximidade com as atividades religiosas não substitui uma vida de fé e obediência a Cristo.

 

Seu nome e sua origem

João identifica Judas como filho de Simão Iscariotes (Jo 6.71). Ele não deve ser confundido com o outro apóstolo chamado Judas, mencionado em Lucas 6.16 e identificado em João 14.22 como aquele que não era o Iscariotes.

Uma explicação conhecida para “Iscariotes” é “homem de Queriote”, o que poderia relacioná-lo a uma localidade de Judá. Essa origem, porém, não é declarada expressamente nos Evangelhos. Por isso, não podemos afirmar com certeza que Judas fosse o único apóstolo da Judeia nem atribuir sua traição a diferenças regionais ou ao relacionamento com os galileus.

Nas listas dos Doze apresentadas por Mateus, Marcos e Lucas, Judas aparece por último e é identificado como aquele que traiu Jesus (Mt 10.2-4; Mc 3.16-19; Lc 6.13-16).

 

Sua escolha entre os Doze

Os Evangelhos não descrevem o primeiro encontro de Judas com Jesus. Lucas informa que o Senhor passou a noite em oração e, depois, escolheu doze dentre seus discípulos, incluindo Judas Iscariotes (Lc 6.12-16).

Como integrante desse grupo, Judas participou da vida e da missão dos apóstolos. Estava entre aqueles que receberam autoridade e foram enviados para anunciar o Reino, curar enfermos e expulsar demônios (Mt 10.1-8).

Esses privilégios não tornaram sua fidelidade automática. Judas continuava responsável por suas escolhas e pela maneira como respondia ao Senhor.

Jesus conhecia o que havia em seu coração. Antes da traição, declarou que um dos Doze era um diabo, referindo-se a Judas (Jo 6.70-71). A expressão denuncia sua oposição a Cristo; não significa que ele fosse literalmente Satanás.

 

O responsável pela bolsa

Judas cuidava da bolsa em que o grupo guardava seus recursos. Essa função aparece nos relatos da unção em Betânia e da última ceia (Jo 12.6; 13.29).

Durante uma refeição em Betânia, Maria ungiu os pés de Jesus com um perfume muito precioso. Judas questionou por que aquele perfume não havia sido vendido por trezentos denários e o dinheiro entregue aos pobres (Jo 12.3-5).

Sua fala parecia demonstrar preocupação com os necessitados. João, entretanto, esclarece que Judas era ladrão e retirava dinheiro da bolsa que lhe fora confiada (Jo 12.6).

O problema não estava na proposta de ajudar os pobres, mas na falsidade de quem a apresentava. Judas usava uma causa justa para esconder seu próprio interesse. Sua conduta mostra o perigo de manter uma aparência de serviço enquanto se alimenta a desonestidade.

 

O acordo para entregar Jesus

Judas procurou os principais sacerdotes e perguntou quanto lhe dariam para entregar Jesus. Eles combinaram o pagamento de trinta moedas de prata. A partir de então, ele passou a buscar uma oportunidade para cumprir o acordo (Mt 26.14-16).

Lucas acrescenta que Judas procurava uma ocasião em que pudesse entregá-lo sem a presença da multidão (Lc 22.6). Por conviver com Jesus, conhecia seus hábitos e os lugares onde costumava estar.

Os Evangelhos não apresentam todos os pensamentos que o levaram à traição. Não há base para afirmar que ele desejava obrigar Jesus a iniciar uma revolta política ou que esperava uma demonstração de poder contra Roma. O que o texto registra é sua cobiça, o acordo com as autoridades e a ação de Satanás.

 

A influência de Satanás e sua responsabilidade

Lucas afirma que Satanás entrou em Judas antes de ele tratar da entrega de Jesus (Lc 22.3-4). João também registra a atuação do diabo e, posteriormente, a entrada de Satanás nele durante a ceia (Jo 13.2,27).

Essas passagens revelam a realidade da ação maligna, mas não retiram a responsabilidade de Judas. Ele procurou as autoridades, negociou o pagamento e participou da prisão de Jesus.

O Senhor anunciou que sua morte ocorreria conforme estava determinado, mas também advertiu sobre a culpa daquele que o trairia (Lc 22.22). O conhecimento de Deus sobre os acontecimentos não transforma o pecado humano em uma atitude inocente ou aprovada por ele.

Judas não deve ser apresentado como alguém obrigado a trair para que o plano da salvação pudesse acontecer. A morte de Cristo fazia parte do propósito divino, mas aqueles que agiram contra ele responderiam por seus atos.

 

Judas na última ceia

Durante a ceia, Jesus declarou que um dos discípulos o trairia. A notícia entristeceu os que estavam à mesa, e eles começaram a perguntar quem seria (Mt 26.20-22).

Judas também perguntou se seria ele. Jesus respondeu de modo a mostrar que conhecia sua intenção (Mt 26.25).

No relato de João, o Senhor entregou um pedaço de pão a Judas e lhe disse que fizesse depressa o que pretendia fazer. Os demais não compreenderam o significado daquelas palavras. Como Judas cuidava da bolsa, alguns pensaram que Jesus o havia mandado comprar algo para a festa ou dar alguma ajuda aos pobres (Jo 13.26-29).

Judas saiu, e João registra que era noite (Jo 13.30). Aquele que havia participado da mesa com o Mestre foi ao encontro dos que desejavam prendê-lo.

 

A traição no jardim

Judas conhecia o lugar onde Jesus costumava reunir-se com os discípulos. Foi até ali acompanhado por uma força enviada pelas autoridades, com armas, lanternas e tochas (Jo 18.1-3).

Ele havia combinado um sinal para identificar Jesus: aquele a quem beijasse deveria ser preso. Ao aproximar-se, saudou o Mestre e o beijou (Mt 26.47-49).

Lucas registra a pergunta de Jesus sobre o uso de um beijo para trair o Filho do Homem (Lc 22.48). Um gesto normalmente associado à amizade foi empregado para facilitar sua prisão.

Jesus não foi surpreendido. Sabia o que estava acontecendo e se apresentou aos que o procuravam, pedindo que deixassem os discípulos partir (Jo 18.4-9).

 

O remorso e a devolução do dinheiro

Quando viu que Jesus havia sido condenado, Judas sentiu remorso e tentou devolver as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos. Reconheceu que havia pecado ao entregar sangue inocente (Mt 27.3-4).

As autoridades não acolheram sua aflição. Judas lançou o dinheiro no templo, retirou-se e tirou a própria vida (Mt 27.5).

Seu remorso foi real: ele reconheceu a culpa e procurou desfazer o acordo. Entretanto, o relato não descreve uma volta a Jesus em busca de perdão. Sua história terminou em desespero.

A diferença entre sentir culpa e arrepender-se não pode ser reduzida apenas às palavras usadas em uma tradução. O arrependimento bíblico envolve voltar-se para Deus, confessar o pecado e abandonar o caminho errado. Paulo distingue a tristeza segundo Deus, que produz arrependimento, da tristeza que conduz à morte (2Co 7.10).

Essa advertência não deve levar uma pessoa culpada a pensar que não há esperança. Quem pecou deve procurar o Senhor e buscar ajuda, em vez de se entregar ao desespero. Em Cristo há perdão para aquele que confessa seus pecados e se volta para ele (1Jo 1.9).

 

O campo associado à sua morte

Mateus relata que os sacerdotes usaram o dinheiro devolvido por Judas para comprar o campo de um oleiro, destinado ao sepultamento de estrangeiros. O lugar passou a ser conhecido como Campo de Sangue (Mt 27.6-8).

Atos também relaciona um campo à recompensa da traição e registra detalhes sobre a morte de Judas, mencionando a ruptura de seu corpo (At 1.18-19). Mateus informa o enforcamento; Atos apresenta outros aspectos do desfecho. A sequência exata de todos esses acontecimentos não é explicada pelos textos.

Ao mencionar a vaga deixada entre os apóstolos, Pedro afirmou que Judas havia sido contado entre eles e recebido parte naquele ministério. Depois, a comunidade escolheu Matias para ocupar seu lugar entre os Doze (At 1.16-26).

 

A advertência de sua história

Judas teve oportunidades que poucos receberam. Ouviu Jesus pessoalmente, acompanhou suas obras e participou do grupo apostólico. Mesmo assim, permitiu que a desonestidade e a cobiça fizessem parte de sua vida e acabou traindo o Senhor.

Seu exemplo nos chama à vigilância. Uma função na igreja, o conhecimento bíblico e as experiências espirituais não dispensam a sinceridade, a obediência e a perseverança. Precisamos examinar nossas atitudes e abandonar o pecado enquanto ouvimos a voz de Deus (1Co 10.12; Hb 3.12-15).

Também devemos evitar julgamentos baseados em imaginação. Os Evangelhos não explicam toda a trajetória interior de Judas nem registram cada oportunidade em que poderia ter mudado de atitude. Eles nos dão informações suficientes para reconhecer sua responsabilidade e a gravidade de sua escolha.

A história de Judas termina de forma dolorosa. Sua memória permanece como uma advertência para que não escondamos o pecado sob a aparência de serviço. Quando falhamos, o caminho é confessar, buscar a misericórdia de Cristo e aceitar a ajuda necessária para continuar vivendo.

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