Mulher samaritana
O relato sobre a samaritana junto ao poço de Jacó somente é encontrado no evangelho de João. O encontro de Cristo com esta mulher estrangeira é parte integrante do propósito fundamental dos escritos deste apóstolo: provar que Jesus é de fato o Filho de Deus e que a fé nele leva à vida eterna. A procedência da mulher e a conversa que ambos tiveram mostra a habilidade sobrenatural de Cristo de perscrutar os corações. O encontro também confirma sua missão, ou seja, receber e salvar todo o que crê nele (Jo 1.12).
Não foi por acaso que João colocou o encontro de Jesus com a samaritana exatamente após a conversa noturna com o respeitável fariseu Nicodemos. Cristo dissera ao distinto líder religioso que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito (Jo 3.16). Assim, o apóstolo mostra aos leitores gentios que este "mundo” incluía também os samaritanos, um povo odiado pelos judeus, os quais os evitavam de todas as maneiras possíveis. Para mais detalhes, veja Samaritanos.
Portanto, é suficientemente significativo que Jesus tenha optado por viajar através da Samaria, em vez de escolher a rota alternativa “aconselhável”, ao longo do rio Jordão. Entretanto, falar com uma samaritana (nenhum rabino conversava abertamente com uma mulher) significava ultrapassar todos os limites! Seu comportamento excêntrico certamente deixou seus discípulos chocados e confusos (Jo 4.27).
Aquela mulher, porém, precisava ouvir a mensagem transformadora do Salvador. Quando entendeu as boas novas, ela creu e imediatamente colheu os benefícios celestiais. Talvez nunca imaginasse que o caminho que a conduzia até o poço de Jacó um dia a levaria às portas do Reino de Deus. A rotina diária de apanhar água transformou-se no agente pelo qual sua vida foi totalmente mudada.
Ela era de Sicar, uma pequena vila perto de Siquém. O poço de Jacó ficava a aproximadamente quinhentos metros de sua casa. Era costume das mulheres da vila irem todas juntas ao poço, diariamente, a uma certa hora. Ela, entretanto, foi sozinha, num horário que não era usual (a “hora sexta”, quase meio-dia).
Quando a mulher chegou ao poço, encontrou Jesus sentado junto ao mesmo. Sem dúvida, ficou surpresa por ver um judeu em território samaritano. Cristo enviara os discípulos para comprar comida, de modo que os dois estavam sozinhos. Ironicamente, foram necessidades físicas (sede e falta de descanso, Jo 4.4-8) que colocaram o Filho de Deus e a mulher samaritana no mesmo lugar. Esse encontro serve como uma bela ilustração da encarnação. A divindade e a humanidade juntas para suprir a necessidade humana.
Jesus pediu água à mulher. Sua resposta frívola revela claramente a tensão que existia entre judeus e samaritanos (v. 9). Cristo, por sua vez, ofereceu-lhe “água viva” (v. 10). Tal oferta surpreendeu a mulher, ao perceber que Ele não tinha meios para tirar água do poço.
Suas mãos vazias e a oferta generosa fizeram com que ela questionasse sua identidade. Ela lhe perguntou se Ele era maior do que o patriarca Jacó (o qual ela chamou de “nosso pai”, talvez para reconhecer os ancestrais de ambos os povos), que cavara o poço e bebera ele mesmo de sua água (w. 11,12).
A réplica de Cristo foi ainda mais intrigante. A água viva que oferecia saciaria a sede dela para sempre. De fato, a sua água, de natureza espiritual, flui de dentro da pessoa para a vida eterna. Ela não precisaria trabalhar por essa água, pois ela correria livremente em seu interior (w. 13,14).
Naturalmente, a mulher não entendeu que esse dom da água viva nada tinha que ver com o material, mas sim o espiritual. Ela pensava apenas em termos de sua sede física. Isso está evidente em sua resposta. Queria a água viva para não ter mais sede nem precisar mais caminhar até o poço (v. 15).
Jesus então lhe fez um pedido igualmente peculiar. Solicitou-lhe que voltasse à cidade e chamasse seu marido (v. 16). Provavelmente, fez isso por duas razões. Primeiro, era apropriado que um homem conversasse com uma mulher ao lado do marido dela. Segundo, esse pedido exporia a condição espiritual da mulher e suas mais profundas necessidades. Isso também daria a Jesus uma oportunidade de revelar sua verdadeira identidade como o Messias, o Salvador do mundo.
A samaritana prontamente informou a Jesus que não tinha marido. O Senhor reconheceu que tal declaração era verdadeira e, de maneira sobrenatural, revelou a sórdida história pessoal dela. Falou sobre seus relacionamentos anteriores fracassados e seu atual estado de adultério (w. 17,18). Essa referência ao seu passado vergonhoso, feita pelo Salvador, certamente fez com que ela enrubescesse.
Jesus não tinha intenção de ser grosseiro ou desdenhoso. Apenas mostrava a necessidade dela da verdadeira água viva. A samaritana tinha uma sede que era muito mais intensa do que a física e somente Ele tinha os meios de aliviar tal anseio. Obviamente, ela estava carente de amor, mas tinha visto seus desejos se despedaçar sobre as rochas dos relacionamentos quebrados. Cristo lhe oferecia um novo começo, por meio da água viva da existência eterna.
Apoiado no argumento fundamental de seu livro (Jo 20.31), João mostra que o Messias tinha a habilidade sobrenatural de sondar o coração das pessoas, a fim de expor-lhes seus pecados e suas necessidades. O apóstolo também demonstrou que Cristo tem os meios e a autoridade para conceder a vida eterna.
A samaritana ficou tão perturbada pela revelação de sua vida que até mudou de assunto! Aparentemente, tentava desviar a atenção de Jesus de sua vida pessoal e entrou no assunto da religião. Por isso, perguntou sobre o lugar certo da adoração.
Os judeus insistiam que a adoração era no Templo de Salomão, em Jerusalém. Os samaritanos, por outro lado, afirmavam que o verdadeiro centro de louvor era no monte Gerizim (o poço de Jacó estava localizado no sopé desta montanha). Os samaritanos apoiavam essa pressuposição num mandamento que Moisés dera ao povo de Israel antes de entrar na Terra Prometida.
Depois que atravessassem o rio Jordão, seis tribos ficariam ao pé do monte Gerizim para abençoar o povo. As outras seis ficariam no monte Ebal, para pronunciar maldições (Dt 27.12,13). Os samaritanos concluíram que este evento estabeleceu o monte Gerizim como o local da adoração a Deus. Judeus e samaritanos constantemente viviam em discórdia por causa dessa questão.
Jesus, entretanto, não entrou em tal debate. Pelo contrário, revelou à samaritana uma verdade profunda sobre a natureza de Deus. O Senhor — que é Espírito e não está confinado a um lugar — não pode ser adorado apenas em um determinado local. Em vez disso, deseja que seus verdadeiros adoradores tenham uma atitude determinada. Devem adorá-lo em espírito e em verdade (Jo 4.21-24). Os verdadeiros adoradores, sejam judeus ou samaritanos, devem ser abertos e honestos para com Deus.
De acordo com Jesus, a verdadeira adoração vem do coração. Deus exige honestidade e transparência por parte do adorador. Até esse ponto, a mulher samaritana escondia seu coração de Deus. Nesse momento, ela responde a essas profundas verdades com uma outra declaração teológica. Disse a Jesus que o “Cristo” estava próximo a chegar, e então ensinaria todas as coisas (v. 25).
Com uma afirmação simples, Jesus revelou que era o Cristo, o qual ela esperava (v. 26). A resposta imediata da mulher a essa revelação não é registrada, mas suas ações mostram que fora profundamente tocada. Deixou o jarro de água, correu de volta para a cidade e contou aos amigos sobre o encontro que teve com Cristo (v. 28).
E interessante notar o que ela disse ao povo, quando voltou à cidade. Ela recebera muitas verdades espirituais em seu encontro com Jesus: a verdadeira natureza de Deus, a verdadeira natureza da adoração e a identidade de Jesus como o Messias. O que ela proclamou para todos na cidade, entretanto, foi a verdade sobre si mesma.
A samaritana implorou para que fossem ao poço e vissem o homem que lhe dissera tudo sobre sua vida. Depois, falou sobre a identidade dele como o Cristo (v. 29). Parece que a habilidade de Jesus de sondar o coração dela foi o que causou a impressão mais duradoura. Por meio de seu encontro com Cristo, ela percebeu suas próprias necessidades. Este foi seu testemunho, o qual impeliu os samaritanos a ir ao encontro do Senhor (v. 30).
Os samaritanos insistiram para que Jesus ficasse mais tempo e Cristo permaneceu com eles por mais dois dias. Inicialmente, as pessoas creram nele por causa do testemunho da mulher. Mas, quando ouviram suas palavras, muitos creram que Ele era o Salvador do mundo (w. 39-42).
O ponto principal do evangelho de João, no relato sobre a mulher samaritana, tem dois aspectos: 1) o Messias, que é o Salvador do mundo, possui a habilidade divina de sondar o coração humano e revelar a verdade de Deus; 2) os que adoram ao Senhor, independentemente do grupo étnico a que pertencem, devem fazê-lo em espírito e em verdade, exigências que apóiam todo o propósito fundamental de João: provar que Jesus é o Filho de Deus e que a vida eterna é alcançada por meio da fé nele. k . m c . r .
Fontes e créditos: Quem é quem na Bíblia Sagrada, editado por Paul Gardner, verbete “Mulher samaritana”, p. 468–470. Adaptação com ajustes pontuais.
