Tiago, o irmão de Jesus
Tiago, o irmão de Jesus, tornou-se o mais proeminente líder da Igreja em Jerusalém, na época do Concilio de Jerusalém (At 15). Também é o autor da tradicional Epístola de Tiago. No Novo Testamento, seu nome aparece em Mateus, Marcos, Atos, 1 Coríntios, Gálatas, Tiago e Judas.
A primeira menção a seu nome está em Mateus 13.55. Seguem-se então os nomes de três outros filhos de Maria e José, os quais provavelmente já estavam mortos, além do próprio Jesus, junto com uma vaga referência às “irmãs” no v. 56. Desde que o nome de Tiago é o primeiro entre os irmãos, é muito provável que fosse o mais velho, depois de Jesus. Como, porém, o irmão mencionado depois de Tiago chamava-se José (v. 55) e era comum que o filho mais velho recebesse o nome do pai (Lc 1.59,60), é possível que o nome de Tiago tenha sido colocado primeiro devido à proeminência que tinha na época em que o Evangelho foi escrito. Jesus, filho adotivo de José, marido de Maria, recebeu este nome por ordem prévia de Deus (Mt 1.20,21).
Uma passagem anterior a esta quase com certeza também refere-se a Tiago. Em Mateus 12.46, “a mãe e os irmãos” de Jesus esperavam para falar com ele. Quando ouviu o pedido deles (v. 47), o Salvador redefiniu sua família como “todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus” (v. 50). Embora fosse muito provável que não entendesse a realidade espiritual da afirmação de Jesus naquele momento, uma semente foi plantada na mente de Tiago, a qual contribuiu para que ele entendesse a natureza da Igreja em seu ministério como líder.
Devido à aparente falta de entendimento sobre o papel de Jesus por parte de Tiago e seus outros irmãos, de acordo com os evangelhos, é quase certo que a conversão dele ao cristianismo só ocorreu depois da ressurreição de Cristo. Provavelmente ele estava no Cenáculo, junto com os apóstolos, Maria e os demais “irmãos” de Jesus, agora também convertidos (At 1.14). Aquelas reuniões de oração (v.14) aconteceram apenas alguns dias depois de o Senhor ter aparecido a Tiago (1 Co 15.7). Antes disso, “seus irmãos não criam nele” (Jo 7.5), embora ficassem impressionados com os milagres que operava (v. 3).
Provavelmente foi uma experiência confusa, se não até mesmo altamente frustrante, crescer na família de José e Maria, como irmão mais novo de Cristo. Seus pais certamente criam que Jesus era o Messias tão esperado, mas mesmo eles nem sempre o compreendiam (Lc 2.49,50). Os outros filhos com certeza não notaram que Jesus era cheio de sabedoria, e que a graça de Deus estava sobre ele (v. 40). O fato de Cristo nunca ter pecado e ter alcançado um crescimento perfeitamente equilibrado (v. 52) provavelmente criava ciúmes e ressentimentos entre os outros irmãos menores.
Embora José e Maria sem dúvida tivessem dito a Tiago e aos outros que Jesus tinha um papel muito especial nos planos de Deus, ainda era difícil para eles entender por que Ele abandonara os negócios da família aos 30 anos (Lc 3.23). Se José já tivesse morrido nessa época, como parece certo pela ausência de seu nome nas passagens dos evangelhos onde a família é mencionada (Mt 12.46; Jo 2.1), Jesus, como o filho primogênito, automaticamente seria o cabeça da casa. Desde que era um “filho de carpinteiro” (Mt 13.55), que tinha trabalhado e se tornado ele próprio um carpinteiro (Mc 6.3), seria natural supor que teria continuado na mesma profissão. Talvez o desapontamento de Tiago e dos outros irmãos seja em grande parte a razão pela qual Jesus não tinha honra “na sua terra e na sua casa” (Mt 13.57), durante seu ministério público.
Não há nenhum outro registro da resposta de Tiago a Jesus e ao seu ministério, até depois da ressurreição. No que parece ter sido sua penúltima aparição antes da ascensão ao céu, o Salvador glorificado manifestou-se ao meio-irmão (1 Co 15.7). É bem provável que a conversão dele seja resultado desse encontro, como aconteceu com Paulo, mais tarde (1 Co 15.8; At 9.3-19).
Desde que nenhum outro dos filhos de Maria e José creu em Jesus durante seu ministério antes da crucificação (Jo 7.5), é bem plausível que Tiago tenha levado alguns dos irmãos (ou todos) à fé em Cristo, após a sua própria conversão. Embora a fé da mãe deles aparentemente não fosse decisiva, o testemunho da transformação que viram em Tiago era muito forte. A menção dos “irmãos” (plural) em Atos 1.14, no cenáculo, requer a conversão de pelo menos dois dos meio-irmãos de Jesus. Quase com certeza estariam incluídos, Tiago e Judas (Mt 13.55; Jd 1) os irmãos que contribuíram com seus livros para o Novo Testamento.
A próxima menção a Tiago encontra-se em Atos 12.17, depois que Pedro foi miraculosamente solto da prisão por um anjo (w. 3-17). O apóstolo pediu aos que estavam reunidos que avisassem “Tiago e os irmãos" sobre o ocorrido. “Irmãos” quase com certeza refere-se à Igreja toda em Jerusalém, de maneira que a menção do nome de Tiago provavelmente reflete o reconhecimento de seu papel de líder na comunidade cristã.
Duas outras inclusões do nome de Tiago em Atos enfatizam sua proeminência como líder da Igreja em Jerusalém. No Concilio, ele foi o último a falar, a fim de adicionar base bíblica ao testemunho de Pedro (At 15.7-11), de Paulo e de Barnabé (v. 12). Desde que sua abordagem foi aceita essencialmente na íntegra pelos demais líderes e a igreja reunida (w. 13-29), provavelmente era muito respeitado por todos.
A última menção a Tiago em Atos é na conclusão da terceira viagem missionária de Paulo, o qual, quando chegou a Jerusalém, procurou “Tiago, e todos os anciãos compareceram” (At 21.18). Esta frase novamente indica que ele era um líder numa posição mais elevada do que os anciãos. Desde que os demais apóstolos, exceto Paulo, não foram mais mencionados em Jerusalém, depois do Concilio, o fato de Tiago ter sido citado demonstra com efeito que sua posição na liderança cristã em Jerusalém, daquele momento em diante até sua morte, era extremamente forte.
A maioria das demais referências a Tiago no Novo Testamento, fora do livro de Atos, provavelmente se refere ao tempo de suas atuações. E possível que a primeira delas seja na Epístola aos Gálatas, escrita pouco depois da realização do Concilio, onde Tiago, Pedro e João são chamados de “colunas” da Igreja (G1 2.9). A interação de Paulo com esses líderes em Jerusalém era muito positiva, pois eles reconheciam seu ministério entre os gentios (v. 9). Posteriormente, entretanto, alguns homens, os quais alegaram que foram enviados por Tiago, chegaram a Antioquia da Síria e causaram grande dissensão dentro daquela primeira igreja composta por gentios (v. 12). Desde que os visitantes conseguiram persuadir Pedro e Barnabé a adotar certas práticas legalistas (w. 12,13), é provável que a menção do nome e da influência de Tiago seja parte de uma vingança dos judaizantes.
Em 1 Coríntios 9, Paulo mencionou que “os irmãos do Senhor” eram casados (v. 5) e suas famílias eram sustentadas financeiramente pela Igreja (w. 4-6). Certamente Tiago estava incluído nesta frase. A referência em 1 Coríntios 15 da aparição do Cristo ressurrecto a Tiago é prova de sua proeminência.
A Epístola de Tiago com certeza foi escrita por Tiago, o qual cresceu junto com Jesus, embora não faça nenhuma menção a esse relacionamento; pelo contrário, humildemente denomina-se “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo” (Tg 1.1). As referências ao AT, ao Sermão do Monte proferido por Cristo e à oração (Tg 4.2,3; 5.13-16) encaixam-se perfeitamente no quadro bíblico e na forte tradição extrabíblica sobre Tiago. Devido ao fato de a congregação dos crentes ser chamada em algumas versões de “sinagoga” (Tg 2.2) e de ecclesía (“igreja”, Tg 5.14), a epístola é considerada um dos mais antigos escritos do Novo Testamento, no tempo em que a Igreja em Jerusalém ainda era mais uma sinagoga messiânica dentro do judaísmo do que um grupo religioso distinto.
A última referência a Tiago no Novo Testamento está no primeiro versículo da curta Epístola de Judas. Como Tiago, Judas refere-se a si mesmo como “servo de Jesus Cristo”, mas segue adiante, para estruturar sua autoridade como escritor das Escrituras pela descrição adicional de “irmão de Tiago” (v. 1). Naquele momento da era apostólica, o único Tiago que seria mencionado sem explicações adicionais era o meio-irmão mais jovem do Senhor.
A tradição diz que Tiago foi morto por causa de sua fé, no início dos anos 60 d.C., pelos judeus. Conforme a tradição, ele foi atirado do pináculo do Templo em Jerusalém, embora esta não seja uma informação segura. A igreja que se desenvolvia perdeu um grande líder e um exemplo de piedade com a morte dele.
Fontes e créditos: Quem é quem na Bíblia Sagrada, editado por Paul Gardner, verbete “Tiago, o irmão de Jesus”, p. 634–636. Colaboração indicada na obra: Boyd A. Luter. Adaptação com ajustes pontuais.
