Filhos na Bíblia
Os filhos frequentemente são citados na Bíblia e constituem um elemento importante no quadro bíblico da família temente a Deus e do povo do Senhor como uma unidade maior. A perspectiva dos escritores bíblicos, entretanto, não é idêntica à da sociedade ocidental contemporânea.
Em geral, no antigo Israel, assim como na maioria das sociedades, os filhos eram vistos como altamente desejáveis, principalmente em se tratando do sexo masculino. Muitas pessoas viam o nascimento e o crescimento dos filhos como uma garantia da formação de uma equipe de trabalho e de proteção contra os que estavam fora da unidade familiar. Em Israel, os filhos geralmente eram vistos como bênção do Senhor (Gn 15.2-5; Sl 127.3-5; 128.2,3). Representavam o cumprimento da promessa de Deus sobre a aliança com seu povo e ao mesmo tempo o cumprimento da responsabilidade humana de frutificar e multiplicar-se, encher a terra e sujeitá-la (Gn 1.28). Infanticídio e aborto, embora fossem praticados por outros povos, não eram aprovados pela Bíblia.
A bênção de Deus não era vista apenas no nascimento dos filhos, mas na manutenção dos descendentes piedosos de uma geração para a outra. A bênção do Senhor não é limitada pelas mudanças dos eventos no correr da história. Sua promessa estende-se para os filhos dos filhos (Sl 103.17). A bênção divina é uma maneira pela qual o governo de Deus estende-se através da história. O passar do tempo não enfraquece a obra do Senhor em abençoar seu povo. Deus continua a nos chamar ao arrependimento e ao serviço amoroso e promete que seu Espírito e sua Palavra não se apartarão das gerações futuras, que ainda nem nasceram (Is 59.21).
No antigo Israel, os filhos participavam do culto desde a mais tenra idade. O primogênito era oferecido a Deus de maneira especial, mas, na verdade, todos eles eram dedicados ao Senhor. Frequentemente, os filhos recebiam nomes que destacavam o cuidado do Senhor pela família ou pelo seu chefe. Abias (1 Sm 8.2) significa “O Senhor meu pai”; Abiúde (1 Cr 8.3), “Meu pai de louvor”; Aimeleque, “meu irmão (Deus), um rei” (1 Sm 21.1). (Veja também Gn 29.32,35; etc.). Os meninos eram circuncidados ao oitavo dia de vida (Gn 17.12); esse ritual simbolizava sua entrada na comunidade de Israel, o povo de Deus. Alguns deles eram dedicados pelos pais ao serviço particular de Deus (1 Sm 1.11; Lc 1.76-79).
A promessa da bênção de Deus não era feita no vazio. Vinha acompanhada de mandamentos para criar os filhos nos caminhos do Senhor (Pv 22.6). Porque Deus é o Criador de todas as coisas e seus estatutos para o seu povo envolviam todas as áreas da vida, não havia distinção entre o secular e o sagrado no treinamento dos filhos. Educação no temor do Senhor envolvia todos os aspectos da vida.
Os pais eram responsáveis pela educação dos filhos. Deviam ensinar-hes sobre os atos poderosos de Deus, por meio dos quais foram tirados do Egito e chamados para receber sua Palavra no monte Sinai (Dt 4.9-10). Enquanto Deus abençoava seu povo, a história da fidelidade do Senhor à sua aliança cresceu e a questão da educação dos filhos assumiu novas dimensões (Js 4.21-24; 2 Tm 3.15).
O ensino aos filhos não era meramente didático. Os pais fortaleciam-nos, ao incluí-los na adoração a Deus (1 Sm 1.4,22-24). Desde pequenos, eles observavam a participação nos rituais do Templo.
A educação dos filhos, contudo, ia além do ensino e do exemplo. As crianças também eram disciplinadas. Não existia o otimismo tolo que via as crianças como inocentes por natureza. “Porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice” (Gn 8.21). “Desviam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nascem, proferindo mentiras” (SI 58.3). O AT narra histórias de filhos egoístas que não tiveram respeito pelos pais (2 Rs 2.23). A Bíblia apresenta um quadro muito realista dos filhos. Eles precisam de disciplina; e os genitores são chamados para ministrar esse ensino. “A estultícia está ligada ao coração do menino, mas a vara da disciplina a afugentará dele” (Pv 22.15). Os filhos nem sempre obedecem à lei de Deus. Exigências muito elevadas são colocadas sobre eles. “Honra a teu pai e a tua mãe” (Êx 20.12; Ef 6.1-3; Cl 3.20). Eles não podem, entretanto, cumprir automaticamente todas essas obrigações. Precisam de disciplina.
Os filhos, contudo, não precisam de uma “mão de ferro”, ou seja, de uma disciplina desprovida de amor. A Bíblia diz claramente aos pais que não provoquem a ira dos filhos (Ef 6.4), nem os irritem (Cl 3.21). Pelo contrário, espera-se que os genitores dêem boas dádivas aos filhos (Mt 7.11).
Em tudo isso, os filhos são vistos como pessoas, não como propriedade; são presentes do Senhor que devem ser cuidados e dedicados ao seu serviço. São membros do povo de Deus. Ninguém poderia deixar essa verdade mais clara do que Jesus em Marcos 10.14: “Deixai vir a mim as criancinhas, e não as impeçais, pois das tais é o reino de Deus”. E amplamente reconhecido que Cristo usava as crianças para fazer a aplicação teológica de que seus discípulos devem receber o Reino de Deus e viver uns com os outros em bondade e humildade, alegrando-se na graça do Senhor. Ninguém deve esquecer, contudo, que Jesus realmente recebeu as crianças. As que descansam nos braços de Cristo são membros (não apenas potenciais) do Reino de Deus. Semelhantemente, em Mateus 21.15,16, logo após sua entrada triunfal em Jerusalém, quando Jesus estava no Templo, somente as crianças o louvavam e diziam: “Hosana ao Filho de Davi”.
Já que os meninos judeus eram circuncidados, como sinal de que eram componentes da aliança, e os filhos dos judeus prosélitos eram batizados, muitos entendem que as crianças estavam incluídas nos batismos familiares (significando que eram membros da comunidade da nova aliança) da igreja primitiva (At 16.15,33; 1 Co 1.16).
Para enfatizar ainda mais que as crianças são membros do Reino de Deus, textos como Marcos 10.14 introduzem a nuança de que as crianças são fracas e dependentes. Estão entre os grupos da sociedade sobre os quais outros podem facilmente tirar vantagem. Elas não controlam o próprio destino. Por isso, às vezes, são descritas junto com as mães como “viúvas e órfãos” (Is 1.23; 10.2; Sl 94.6). Sem um pai para cuidar delas e protegê-las, ficam indefesas e à mercê dos outros. Na sociedade patriarcal do antigo mundo mediterrâneo, não havia garantia de cuidado e provisão para as crianças, exceto por meio do pai. A injustiça era uma ameaça diária para um órfão. Por esse motivo, Deus, em sua graça, declara-se “pai dos órfãos” (Sl 68.5). Da mesma maneira, os que professam a religião pura são descritos como os que visitam “os órfãos e as viúvas nas suas aflições” (Tg 1.27). Não apenas o Senhor mas também o seu povo cuidam das crianças que não têm quem as proteja ou sustente na sociedade.
Os termos “criança” e “filho” são também usados metaforicamente na Bíblia. Os habitantes de Jerusalém são referidos como seus “filhos” (Mt 23.37; Gl 4.25). Nesse sentido, “filhos” têm um significado similar nas expressões intercambiáveis: “filhos de Abraão” (Jo 8.39; Gl 3.7), “descendentes de Abraão” (Jo 8.37; Gl 3.16) e “filhos de Israel” (Dt 1.3). Infelizmente, alguns tradutores desviam a atenção da referência aos “filhos” nesses versículos.
Apenas um pequeno passo separa esse uso e a descrição da comunidade como uma família, com Deus e não Abraão como pai. No NT esse uso é muito mais desenvolvido do que no AT. Não somente o Senhor é o Pai, mas Jesus é o Filho de Deus e os que crêem nele também são filhos do Senhor (Jo 1.12). A igreja é o lar (ou a casa) de Deus (1 Tm 3.15). Os cristãos são "irmãos” em Cristo.
Como “filhos de Deus”, confessamos nossa fraqueza e humilde dependência do Pai para todas as necessidades e descansamos confiadamente em sua provisão amorosa e sua proteção (Mt 6.26,32; 7.11; 10.29,32,33). Ser filho de Deus implica fazer a sua vontade (Mt 12.48-50; 5.44-48; 7.21) e viver em comunhão com os nossos irmãos, a fim de demonstrarmos os traços da família, em humildade, amor e cuidado (Ef 5.1ss). Os filhos refletem o Pai.
A metáfora “filhos” é usada com uma conotação negativa em expressões como “filhos da transgressão, descendência da falsidade” (Is 57.4), “filhos do ira” (Ef 2.3) e “filhos do diabo” (1 Jo 3.10).
Os termos “filho meu” e “filhinhos” são usados pelos mestres e escritores, quando se dirigem aos estudantes e leitores. O livro de Provérbios faz um uso extensivo da figura na expressão “Filho meu” (veja os primeiros versículos dos caps. 2 a 7). Em 1 João 2.1 o termo afetuoso “meus filhinhos” é usado com esse mesmo sentido. Paulo (F110), o escritor de Eclesiastes (Ec 12.12) e Jesus (Mc 2.5), utilizam todos expressões similares.,
Este estudo foi elaborado pela equipe do Portal Personagem Bíblico a partir de pesquisa bíblica, tendo como uma das referências o verbete “Filhos na Bíblia” da obra Quem é Quem na Bíblia Sagrada (Editora Vida).
