Espírito santo
Em ambas as línguas, tanto no grego como no hebraico, os vocábulos usados para o Espírito Santo enfatizam sua santidade. No AT, o adjetivo santo antes do substantivo espírito aparece raramente (SI 51.11; Is 63.10,11). Em contraste, oNT apresenta essa com binação na m aioria dos livros, como um nome que ocorre frequentemente, especialmente no livro de Atos. Isso não significa que a ênfase ao Espírito é menor no Antigo do que no Novo Testamento. As expressões mais frequentes no AT são o Espírito de Deus ou o Espírito do Senhor, as quais ocorrem numerosas vezes.
As palavras gregas e hebraicas para "espírito” revelam um significado duplo: espírito e vento. Por exemplo, “o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas” (Gn 1.2), mas “Deus fez passar um vento sobre a terra, e as águas abaixaram” (Gn 8.1). Jesus disse a Nicodemos: “O que é nascido do Espírito, é espírito… o vento sopra onde quer (Jo 3.6,8). Outro significado do termo "espírito”, nas duas línguas, é sopro, respiração, tanto divina como humana (Jó 4.9; 12.10; 2 Ts 2.8).
Por todas as Escrituras a expressão “espírito” é escrita com letra maiúscula, para referir-se ao Espírito de Deus, ou com letra minúscula, para indicar o espírito humano. Devido ao fato de que os manuscritos antigos não usavam letras maiúsculas, os tradutores e editores às vezes têm muita dificuldade para determinar se o escritor tem em mente o espírito de Deus ou o humano (veja por exemplo variações de tradução, em Atos 19.21).
O Espírito no Antigo Testamento
Na criação
A primeira vez que a palavra "espírito” aparece na Bíblia é no relato da criação, em Gênesis. O Espírito de Deus, o qual pairava sobre as águas, é o poder criativo que traz ordem ao caos (Gn 1.2). O salmista faz eco a esse conceito, quando diz: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo sopro da sua boca” (SI 33.6). Por meio do sopro de Deus, Adão tornou-se uma alma vivente (Gn 2.7). Jó afirma que o Espírito do Senhor o criou e que recebeu vida por meio do sopro do Todo-poderoso (Jó 27.3; 32.8; 33.4; 34.14,15). Quando Deus retira seu sopro dos seres humanos e dos animais, eles morrem e retornam ao pó (Sl 104.29; Ec 3.19,20; 12.7). No vale dos ossos secos, o sopro de Deus entrou nos esqueletos e eles retornaram à vida (Ez 37.1-14).
Como uma Pessoa
A ênfase sobre o monoteísmo, dada pelos escritores do Antigo Testamento, prevalece sobre a doutrina da Trindade. No entanto, os escritores fazem uma distinção entre Deus e o Espírito do Senhor, sem jamais considerar o Espírito como uma mera emanação de Deus. Tome, por exemplo, as referências em Gênesis 1.1,2. Deus criou o céu e a terra, mas o Espírito do Senhor pairava sobre as águas. Deus disse que seu Espírito não contenderia para sempre com o homem (Gn 6.3). Isso significa que os escritores viam duas pessoas divinas distintas; eles entendiam que o Espírito era Deus, o qual exercia funções que os escritores bíblicos expressaram em termos humanos. Isso fica bem claro em algumas passagens. Os levitas oraram: “Deste o teu bom Espírito para os ensinar (os israelitas)” (Ne 9.20). Davi perguntou: “Para onde me irei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?” (Sl 139.7) e Isaías escreveu que o povo entristeceu o seu Espírito Santo e Deus (o Pai) tornou-se inimigo deles (Is 63.10-12; veja também 48.16).
Na profecia
A manifestação do Espírito é evidente na vida dos profetas, os quais transmitiam ao povo o que o Senhor lhes falava. Tornavam-se porta-vozes de Deus, quando o Espírito descia sobre eles. O profeta Isaías declarou que o Espírito do Senhor Soberano estava sobre ele (Is 61.1), o que foi cumprido plenamente em Jesus (Lc 4.18). Ezequiel revelou que o Espírito o levantou e o levou a lugares e pessoas, numa visão que o mesmo Espírito de Deus lhe dera (Ez 11).
Embora algumas pessoas não tivessem o título de profeta, mesmo assim proferiram mensagens por meio do Espírito Santo. O rei Davi pronunciou seu último testemunho poético antes de morrer, quando disse: “O Espírito do Senhor fala por mim, e a sua palavra está na minha boca” (2 Sm 23.2). Quando José interpretou os sonhos de Faraó, este exclamou que o Espírito de Deus estava sobre o filho de Jacó (Gn 41.38,39). Depois que Samuel ungiu a Saul rei de Israel, o Espírito do Senhor desceu poderosamente sobre ele e profetizou. Deus o transformou numa pessoa diferente, de maneira que os israelitas perguntaram: “Está também Saul entre os profetas?” (1 Sm 10.5-13). Essa pergunta foi repetida quando o Espírito do Senhor desceu novamente sobre Saul enquanto perseguia Davi sem trégua. O rei tirou sua túnica e profetizou (1 Sm 19.23,24).
No acampamento de Israel, durante o Êxodo, Deus retirou parte do Espírito que estava sobre Moisés e a colocou sobre 70 anciãos; eles então profetizaram, bem como Eldade e Medade. Quando ouviu sobre isso, o grande legislador disse que seu desejo era que o Senhor colocasse o seu Espírito sobre todo o povo, para que todos profetizassem (Nm 11.25-29). O profeta Miquéias opôs-se aos falsos profetas em seus dias. Disse que estava repleto do Espírito do Senhor, de sua justiça e força, para convencer Israel de seus pecados (Mq 3.8).
Moisés é o protótipo do Messias, pois foi considerado um profeta e revelou o Espírito do Senhor. Ele predisse o advento de Cristo, quando falou ao povo que Deus levantaria um profeta como ele próprio, do meio deles (Dt 18.15,18). Além disso, ele repetidamente introduziu a revelação do Senhor com as palavras “disse o Senhor a Moisés” (Nm 8.1,5,23). O Espírito tomava o controle dos profetas e, por meio deles, revelava a palavra de Deus (Ez 2.2; 13.3,8,13,20; Mq 3.8). Os profetas maiores e, por implicação, também os menores, foram inspirados pelo Espírito do Senhor Deus Todopoderoso (Zc 7.12).
Com poder
O Espírito frequentemente incitava uma pessoa e a enchia de poder, como aconteceu com Sansão (Jz 13.25). O Espírito do Senhor capacitou Gideão a convocar Israel contra os opressores estrangeiros e vencê-los com 300 homens (veja especialmente Jz 6.34). Elias foi cheio do Espírito de Deus, o qual aparentemente o transportava para vários lugares (1 Rs 18.12; 2 Rs 2.16).
Quando Samuel ungiu o filho de Jessé para ser rei de Israel, “o Espírito do Senhor se apoderou de Davi”. Ao mesmo tempo, abandonou Saul; Deus concedeu ao rei um espírito maligno para atormentá-lo (1 Sm 16.13,14). O Espírito abençoou Davi com dons musicais e poéticos, capacitou-o a ser um guerreiro destemido e deu-lhe uma esplêndida capacidade de liderança.
O dom do Espírito não se limitava a líderes e reis em Israel. Na construção do Tabernáculo, Deus separou Bezalel, Aoliabe e outros para realizarem o trabalho. O Espírito do Senhor encheu Bezalel “de habilidade, de inteligência, e de conhecimento, em todo o artifício” (Êx 31.2-4; 35.31). Nos tempos do AT, entretanto, o Espírito não repousava sobre todos os israelitas e os que recebiam seu dom especial o mantinham apenas temporariamente.
Escatologia
A recepção universal do Espírito Santo foi anunciada profeticamente séculos antes do derramamento do Espírito no dia de Pentecostes (veja At 2.17-21). Deus falou por meio do profeta Joel: “E depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. Até sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito” (J1 2.28,29). Joel, porém, não estava sozinho na predição do futuro derramamento do Espírito sobre o povo de Deus. Isaías também fez uma ilustração do Senhor derramando correntes de água sobre terras secas e seu Espírito sobre os descendentes de Jacó (Is 44.3). Por meio de Ezequiel, Deus disse aos judeus do exílio que o Senhor os tomaria de todas as nações e os reconduziria à sua própria terra. Colocaria seu Espírito sobre eles e os motivaria a obedecer à sua Lei (Ez 36.24-28; 39.29). Deus revelou que o Messias, quando viesse, seria cheio do Espírito (Is 11.2), o qual também seria derramado sobre o povo da aliança (Is 32.15; 59.21; Ez 37.14). E esse Espírito permaneceria com os filhos de Deus (Ag 2.5).
O período intertestamentário
M uito pouco se sabe, concernente ao Espírito, no decorrer do período intertestamentário. No máximo, ouvimos ecos do AT, os quais reforçam o que já foi mencionado. Os livros apócrifos e pseudepígrafos, a assim chamada literatura deuterocanônica, os documentos de Qumrã, e os escritos de Filo e Josefo, nada apresentam de novo. Enfatizam a relação do Espírito com o Messias (1 Enoque 62.2; Sir 48.24) e o pedido pelos dons do Espírito (2 Esdras 14.22). Os escritos revelam a esperança pela vinda de um autêntico profeta (1 Macabeus. 14.41), porque os verdadeiros não existiam mais (1 Macabeus. 9.27).
O Espírito no Novo Testamento
As referências ao Espírito Santo são abundantes no Novo Testamento, especialmente nos escritos de Lucas e Paulo. O ensino do NT sobre o Espírito Santo cumpre as profecias do AT que predisseram seu advento. As alusões ao Espírito Santo no NT cobrem todo o espectro, desde sua sombra que encobriu Maria na concepção de Jesus (Mt 1.18, 20; Lc 1.35), até o chamado do Espírito pelo retorno de Cristo (Ap 22.17). O NT enfatiza o derramamento do Espírito, seus dons, sua obra, inspiração, comunhão e habitação nos corações dos cristãos.
A doutrina da Trindade fica evidente no relato do batismo de Jesus: O Pai revela o Filho, de quem se agrada, e o Espírito Santo desce sobre ele na forma de uma pomba (Mt 3.16,17; Mc 1.10; Lc 3.22). A fórmula batismal trinitária, mostrada na conclusão do evangelho de Mateus, enfatiza essa mesma doutrina (Mt 28.19). No literatura epistolar, os apóstolos ensinaram frequentemente o princípio trinitariano, tanto no início como na conclusão de suas cartas (veja 2 Co 13.13; Ef 1.2-11; 1 Pe 1.1-3).
Mateus, Marcos e Lucas
Além dos relatos do nascimento, batismo e tentação de Jesus, há poucas alusões ao Espírito nos evangelhos de Mateus e Marcos. Comparativamente, o de Lucas está repleto de passagens que falam sobre o Espírito. Mateus e Lucas relatam ambos a concepção de Jesus como obra do Espírito Santo (Mt 1.18, 20; Lc 1.35). João Batista disse ao povo que ele batizaria com água, mas Jesus os batizaria com o Espírito Santo (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16). Antes de Cristo iniciar seu ministério, o Espírito o levou ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mt 4.1; Mc 1.12; Lc 4.1). No evangelho de Mateus, o Espírito do Pai falou por meio dos discípulos (Mt 10.20); em dois relatos de Marcos e Lucas, o Espírito Santo fala por intermédio povo de Deus (Mc 13.11; Lc 12.12). De acordo com os três evangelhos sinópticos, o pecado contra o Espírito Santo jamais será perdoado, nem nesta vida nem na vindoura (Mt 12.31,32; Mc 3.29; Lc 12.10). Quando Jesus interrogou os fariseus a respeito do Cristo, mencionou o Espírito Santo e perguntou: “Como, pois, Davi, pelo Espírito, lhe chama Senhor?” (Mt 22.43; Mc 12.36). Quer dizer, o Espírito Santo inspirou Davi a compor o Salmo 110 e referir-se a Jesus.
O evangelho de Lucas tem muitas referências ao Espírito Santo. Já nos primeiros dois capítulos, os leitores descobrem que o Espírito encobriu Maria com sua sombra (Lc 1.35) e encheu João Batista, Isabel, Zacarias e Simeão (1.15,17,41,67; 2.25-27). Depois de ser tentado por Satanás, Jesus retornou à Galiléia e recebeu o poder do Espírito Santo, que repousou sobre Ele (Lc 4.14,18). Lucas menciona que Cristo experimentou profunda alegria no Espírito Santo (Lc 10.21) e disse aos seus discípulos que o Pai dá o seu Espírito aos que lhe pedem (11.13). Lucas termina seu relato com a palavra que dirigiu aos discípulos; disse-lhe que permanecessem em Jerusalém até que fossem revestidos do poder de Deus, ou seja, com o Espírito Santo (Lc 24.49).
Atos
Uma nova dispensação começa no NT com o derramamento do Espírito Santo em Pentecostes. As palavras que Jesus disse sobre o Espírito, o qual habitaria no meio de todo o seu povo, foram cumpridas na vida dos apóstolos e continuam a agir na vida de todos os crentes hoje. O Filho de Deus predisse que, dentro de poucos dias após a sua ascensão, o batismo do Espírito Santo faria com que os apóstolos fossem testemunhas dele em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da Terra (At 1.5,8). Essa profecia cumpriu-se no dia de Pentecostes, em Jerusalém, para o povo judeu (At 2.4, 33, 38); posteriormente, em Samaria para os samaritanos (8.15-18), e mais tarde em Cesaréia para o centurião romano Cornélio e sua casa (10.44-47; 11.15,16; 15.8). O último grupo de pessoas a receber o derramamento do Espírito foram os seguidores de João Batista que viviam em Efeso (At 19.1-7).
As palavras “cheio do” ocorrem repetidamente em Atos. Por exemplo, diante do Sinédrio, Pedro foi cheio do Espírito Santo (At 4.8). Quando ele e João foram soltos e voltaram para o meio dos irmãos, o Espírito encheu todos eles (At 4.31). Semelhantemente, os sete diáconos eram cheios do Espírito Santo (At 6.3), entre os quais estava Estêvão (6.5, 10; 7.55). Paulo também foi cheio do Espírito Santo (At 9.17; 13.9), e o mesmo aconteceu com seu companheiro Barnabé (11.24). Os crentes de Antioquia da Pisídia receberam a mesma bênção (At 13.52).
Na Igreja primitiva, o Espírito Santo testificou por meio da Palavra de Deus revelada (At 1.16; 4.25). Falou com Filipe (At 8.29), Pedro (10.19; 11.12), com os líderes da Igreja em Antioquia (13.2) e com Paulo (21.4,11). Além do mais, o Espírito Santo confirmou o testemunho dos apóstolos diante do Sinédrio (At 5.32) e não permitiu que mentissem, tentassem ou resistissem a Ele (5.3, 9; 7.51). Simão, o mágico, não pôde comprar o Espírito Santo (At 8.19). Pelo contrário, o Espírito fortaleceu a Igreja (At 9.31) e aprovou a decisão do Concilio de Jerusalém (15.28). O Espírito enviou a Paulo e Barnabé (At 13.4), mas não permitiu que o apóstolo dos gentios e seus companheiros fossem à Ásia e entrassem na Mísia (16.6,7). Compeliu Paulo a ir para Jerusalém, mas o alertou de que muitos perigos o aguardavam (At 20.22,23); o profeta Ágabo predisse pelo Espírito Santo que o apóstolo seria preso (21.11; veja também 11.28).
As epístolas paulinas
Através de suas muitas cartas, Paulo apresenta uma teologia do Espírito Santo muito mais desenvolvida do que a de qualquer outro escritor do Novo Testamento. Ensina sobre o relacionamento do Espírito Santo com o Pai e com o Senhor Jesus Cristo. Instrui os cristãos sobre a obra, os dons, o poder e a presença do Espírito Santo. Em certos capítulos das epístolas, o apóstolo desenvolve sua teologia do Espírito Santo (Rm 8; 1 Co 2; 12; 2 Co 3; G1 5). Essas seleções, entretanto, devem ser estudadas dentro do contexto das cartas paulinas.
1. O Espírito de Deus. Paulo mencionou o Espírito de Deus primeiramente em suas epístolas às igrejas de Corinto e Efeso. Destacou que o Espírito do Senhor revela sua sabedoria aos crentes, faz com que sejam sensíveis às verdades espirituais e lhes dá a habilidade de ter discernimento espiritual (1 Co 2.10-14). Informou aos seus destinatários que o Espírito Santo habitava neles, porque eram templo de Deus (Rm 8.9, 11; 1 Co 3.16; 6.19). Juntos, formavam uma habitação onde o Espírito do Senhor vivia (Ef 2.22) e, como autênticos cristãos, adoravam a Deus pelo Espírito (Fp 3.3). Foi o próprio Deus quem deu o Espírito ao seu povo (1 Ts 4.8).
Em outra passagem, Paulo disse aos coríntios que eram uma carta de Cristo, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo. Essa missiva era a tábua do coração dos homens (2 Co 3.3). Pelo poder do Espírito que habitava nele, o apóstolo foi capaz de aconselhar as pessoas sobre problemas conjugais e falar com a confiança que o Espírito lhe dava (1 Co 7.40). Nenhuma pessoa em quem o Espírito de Deus habita pode amaldiçoar a Cristo. O crente confessa que Jesus é o Senhor, por meio do Espírito Santo (1 Co 12.3).
2. O Espírito e Jesus. Muitas vezes Paulo não foi claro, ao distinguir entre o Espírito do Senhor Deus e o Espírito do Senhor Jesus Cristo. As palavras “o Espírito do Senhor” podem referir-se tanto ao Pai como ao Filho; Paulo descreveu o Espírito como “o Espírito de Deus”, “Espírito do Senhor”, “Espírito de Cristo”, “Espírito de Jesus”, ou simplesmente “o Espírito”. O contexto muitas vezes dá ao leitor um entendimento dessas passagens. Para ilustrar, em Romanos 8.9, o apóstolo disse; “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele”. Paulo declarou que o Espírito de Deus fluiu por meio de Cristo para o povo de Deus e o mesmo Espírito emanava tanto de Deus como de Cristo. Ambos, o Pai e o Filho, fazem com que o Espírito Santo habite no coração e na vida dos crentes.
De maneira similar, Paulo escreveu aos Coríntios: “Ora, o Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade” (2 Co 3.17). O contexto desse versículo mostra que Moisés colocou um véu sobre o rosto, para evitar que o povo visse a glória de Deus se desvanecer da sua face (veja Êx 34.33-35). Paulo explicou que ele e os demais crentes refletiam a glória do Senhor, pois eram transformados na imagem de Cristo (2 Co 3.18). Assim, transmitiu a informação de que falava sobre Jesus e que Cristo operava por meio do Espírito.
3. A obra do Espírito. Paulo declarou que o Espírito de Deus, que ressuscitou Jesus dos mortos, vivia nos crentes e assegurava-lhes que também ressuscitariam (Rm 8.10,11). O Espírito Santo opera no coração dos cristãos, quando se arrependem das obras pecaminosas; como filhos de Deus, são guiados pelo Espírito. O próprio Espírito afirma o fato de que Deus tem adotado os crentes como seus filhos (Rm 8.13-16).
A obra do Espírito é evidente nos crentes que são chamados as primícias da colheita vindoura (Rm 8.23). Em adição, Paulo disse ao povo de Deus que o Espírito intercede por eles e os ajuda em suas orações. Eles mesmos não sabem como orar adequadamente; por isso, o Espírito intercede pelos santos segundo a vontade de Deus (Rm 8.26,27).
O Espírito Santo é o instrumento por meio do qual os cristãos são abençoados com a justiça, paz e alegria (Rm 14.17; G1 5.5; 1 Ts 1.6). Ele é a fonte de amor, esperança e poder (Rm 15.13,16,19). Ele os santifica por meio do novo nascimento e da regeneração (Rm 15.16; Tt 3.5), tem comunhão com eles (2 Co 13.13; Fp 2.1), fortalece-lhes a fé (Ef 3.16,17) e os sela em Cristo (Ef 1.13).
4. Os dons espirituais. Paulo frequentemente enumerava e explicava os dons que o Espírito Santo concede aos crentes. Em sua carta aos Romanos, especificou os dons de profecia, serviço, ensino, exortação, contribuição, administração e misericórdia (Rm 12.6-8). Essa lista não é exaustiva, porque, ao escrever aos coríntios, Paulo variou e acrescentou. Registrou nove dons: sabedoria, conhecimento, fé, cura, operação de milagres, profecia, discernimento de espíritos, línguas e interpretação de línguas (1 Co 12.8-10), os quais podem ser relacionados em três categorias: 1. Pedagógicos: sabedoria e conhecimento; 2. Sobrenaturais: fé, milagres e cura; 3. Comunicativos'. profecia, discernimento de espíritos, línguas e sua interpretação. Esse catálogo tem uma variação nos últimos versículos de 1 Coríntios 12. Ali Paulo enumera os dons apontados por Deus: apóstolos, profetas e mestres. Depois destes três, ele menciona os de operar milagres, curar os enfermos, servir, administrar, falar em línguas e interpretá-las (w.28-30). Em outra epístola, Paulo menciona os dons que são indicados por Cristo: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (Ef 4.11).
Em vez de mencionar os dons do Espírito, na epístola aos Gálatas Paulo cita as nove virtudes como o fruto do Espírito: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (G1 5.22,23). A diferença entre os dons e o fruto é que um é adquirido por meio de doação e o outro como resultado. Quer dizer, o Espírito Santo atribui um dom específico a um crente, mas a obra do Espírito dentro do cristão produz um resultado na forma de virtudes espirituais.
5. O Espírito e a Lei. Em algumas de suas cartas (Rm, 2 Co e Gl), Paulo falou que o Espírito liberta da escravidão da Lei. No contexto, ele dirigia sua mensagem aos judeus convertidos, entre outros, que eram mais influenciados pelos judaizantes. Sua mensagem básica era a liberdade da lei do pecado e morte por meio da obra do Espírito Santo (Rm 8.2, 5-8; 2 Co 3.6, 17; Gl 3.2-5; 5.3-5). Isso não quer dizer que, ao abolir o legalismo, Paulo promovia uma forma de antinomia. Pelo contrário, ensinou que a lei do Espírito de vida é a liberdade (Rm 8.2), que o amor é o cumprimento da lei (Rm 13.8-10; Gl 5.14) e que o crente é guiado pelo Espírito que nele habita (Gl 5.18, 25).
6. O Espírito e o batismo. Em 1 Coríntios 12.13, Paulo declarou que “todos nós fomos batizados em um só Espírito, formando um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito”. O apóstolo enfatizou a palavra todos, para indicar que pessoas de todas as áreas, raça ou condição social estão incluídas. Enfatiza a universalidade do corpo de Cristo, isto é, a Igreja. Em ambos os textos e contextos, indicou que falava de maneira figurada sobre o batismo e beber de um só Espírito, sem dar nenhuma indicação de pensar nas ordenanças do batismo e da ceia do Senhor. Aqui, Paulo não faz uma alusão ao batismo nas águas e à comunhão.
O desenvolvimento de 1 Coríntios 12.13 sugere que ser batizado significa que o indivíduo se toma um membro vivo da Igreja, após a conversão. Quando acontece a regeneração espiritual, a pessoa passa a pertencer ao Corpo de Cristo, isto é, à Igreja. Não é a observância externa do batismo nas águas, mas a transformação interna, por meio do Espírito Santo, que leva o crente à comunhão com Jesus. Além disso, o verbo grego no tempo aoristo, traduzido como “foi dado beber”, indica uma ocorrência única. Se esse verbo estivesse relacionado com a Ceia do Senhor, como alguns sugerem, seria algo contrário à instrução de Paulo para manter a observância dela constantemente, até a volta de Cristo (1 Co 11.25,26).
O Evangelho de João e 1 João
1. O Evangelho de João. Em muitos capítulos de seu evangelho, João referiu-se ao Espírito Santo e registrou as palavras de Jesus concernentes a Ele. Mencionou o batismo de Jesus, sobre quem o Espírito pousou na forma de uma pomba. Notou que João Batista, que batizava com água, revelou que Jesus batizaria com o Espírito Santo Qo 1.32,33). Deus deu o Espírito a Jesus sem medida Qo 3.34).
Jesus disse a Nicodemos que era necessário nascer de novo antes de se fazer parte do reino de Deus. Cristo afirmou: “Aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne, mas o que é nascido do Espírito, é espírito” Qo 3.5,6). João usou a palavra gregapneum a com dois sentidos diferentes: vento e Espírito. O mistério da movimentação do vento é similar a ser nascido de novo do Espírito Qo 3.8). O Espírito é a fonte de vida Qo 6.63) e ela é comparada às fontes de água viva que, espiritualmente falando, fluem do interior do crente (7.38,39).
O discurso de despedida de Jesus, proferido no cenáculo, enfatizou o advento do Espírito Santo. Ensinou que Ele seria dado pelo Pai e permaneceria para sempre com o crente. Seria outro Consolador, uma Pessoa que personificaria a verdade Qo 14.16,17). O Consolador sairia do Pai, seria enviado pelo Filho e testificaria sobre Jesus Qo 15.26). O Consolador também convenceria o mundo do pecado, da justiça e do juízo Qo 16.711). O Espírito guiaria o crente em toda a verdade, proporcionaria a revelação futura e glorificaria a Jesus Cristo Qo 16.13-15). Por último, em antecipação ao Pentecostes, Jesus soprou o Espírito Santo sobre os discípulos, para auxiliá-los na tarefa que receberam dele Qo 20.22).
2. 1 João. As referências ao Espírito Santo nesta epístola não diferem muito daquelas do evangelho de João. O Espírito dado aos crentes cria nos mesmos uma consciência de que o Pai vive neles, por meio do Filho (1 Jo 3.24; 4.13). Como os cristãos são capazes de reconhecer o Espírito de Deus? Eles o conhecem pelo reconhecimento de que Jesus Cristo veio de Deus em forma humana; eles ouvem a Deus (1 Jo 4.2, 6). O Espírito da verdade testifica que Jesus é o Filho de Deus (1 Jo 5.6-8).
O restante do Novo Testamento
1. Hebreus. O escritor da carta aos Hebreus ensinou sobre a doutrina da Trindade especialmente com respeito à revelação de Deus. Embora Davi tenha composto o Salmo 95 e Jeremias tenha registrado uma profecia sobre a nova aliança Qr 31.31-34), suas palavras foram proferidas pelo Espírito Santo, dirigidas aos leitores da carta aos Hebreus (Hb 3.7; 10.15). No tempo determinado, o Espírito revelou que o perdão dos pecados por meio do sangue de animais terminaria (Hb 9.8, 14). Além disso, o escritor da carta falou sobre os pecados cometidos contra o Espírito Santo (6.4-6; 10.29). Declarou, porém, que o povo de Deus é recipiente dos dons que o Espírito Santo distribui entre eles (2.4).
2. As cartas de Pedro e Judas. 1 Pedro tem cinco referências ao Espírito Santo (1 Pe 1.2,11,12; 3.18; 4.14). Juntamente com o Pai e o Filho, o Espírito é o que santifica os eleitos de Deus (1.2). O Espírito predisse os sofrimentos de Cristo e a glória subsequente (1.11). O Espírito guiou e continua a dirigir os que pregam o Evangelho da salvação (1.12).
Enquanto em outras partes do NT é ensinado que Deus, o Pai, ressuscitou Jesus dos mortos, Pedro, em sua primeira carta, declara que Cristo foi vivificado pelo Espírito (1 Pe 3.18; cf. Rm 8.11). Na verdade, toda Trindade esteve envolvida na ressurreição. Assim como o Espírito estava com Cristo, assim também o Espírito da glória repousa sobre todas as pessoas que sofrem por causa de Jesus (1 Pe 4.14).
2 Pedro tem apenas uma referência ao Espírito (1.21). Pedro escreveu que as pessoas que compuseram as Escrituras foram dirigidas pelo Espírito Santo. Para escrever o AT e o NT, o Espírito usou seres humanos, com seus talentos e percepções, suas características e seu treinamento. Ao fazer isso, o Espírito os guardou do pecado e do erro.
Judas revelou que as pessoas que estavam determinadas a dividir a igreja e eram levadas pelos seus desejos carnais careciam do poder do Espírito Santo dentro delas (Jd 19). Os verdadeiros crentes, contudo, fortalecem a fé, quando oram constantemente no Espírito Santo (v. 20).
3. Apocalipse. O último livro do NT tem numerosas passagens que falam sobre o Espírito Santo. Na ilha de Patmos, João estava no Espírito, tanto no dia do Senhor como no momento em que olhou através de uma porta aberta no céu (Ap 1.10; 4.2). Posteriormente, foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para uma grande e alta montanha (17.3; 21.10). O Espírito dirigiu-se às sete igrejas na Ásia Menor e todo o que tem ouvidos é exortado a escutar (Ap 2.7,11,17,29; 3.6,13,22). O Espírito Santo acrescentou à bem-aventurança: “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor” as palavras : “Sim, descansarão dos seus trabalhos, pois as suas obras os acompanharão” (Ap 14.13). Por último, junto com a Igreja de Jesus, o Espírito Santo dirige-se a Cristo e diz: “Vem” (22.17).
Conclusão
O Espírito Santo desceu sobre Jesus Cristo na forma corpórea de uma pomba (Lc 3.22) e como labaredas de fogo sobre as pessoas reunidas no dia de Pentecostes, em Jerusalém (At 2.3). E o sopro de Deus tanto na criação como na recriação (SI 33.6; Jo 3.8).
O Espírito Santo trabalhou na formação das Escrituras e agora se empenha em sua aplicação. Ele literalmente levantou os escritores do Antigo e do Novo Testamento e os guiou enquanto escreviam cada palavra das Escrituras (2 Pe 1.20,21). Ele fala com as pessoas por meio das Escrituras (At 28.25; Hb 3.7; 9.8; 10.15). A Palavra de Deus é a espada do Espírito (Ef 6.17).
Para os cristãos, o Espírito é o Consolador que coloca seu selo sobre eles, como sinal de propriedade (2 Co 2.21). Ao mesmo tempo, os crentes têm a certeza de que o Espírito é a primeira prova das bênçãos ainda maiores e melhores esperadas por eles (2 Co 1.22). Ele é como o orvalho que desce invisível sobre a Terra, embora exiba resultados visíveis. Deus abençoa seu povo por meio do Espírito Santo e concede-lhes a bênção trinitária da graça de Cristo, do amor de Deus e da comunhão do Espírito Santo (2 Co 13.13).
Este estudo foi elaborado pela equipe do Portal Personagem Bíblico a partir de pesquisa bíblica, tendo como uma das referências o verbete “Espírito santo” da obra Quem é Quem na Bíblia Sagrada (Editora Vida).
