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Personagem Bíblico
ESTUDO DA PALAVRA

Teofania

O vocábulo “teofania” não está registrado na Bíblia. Deriva de dois termos gregos que foram combinados para dar o sentido literal de “aparição de Deus”. Na Bíblia, teofania significa uma manifestação de Deus localizada, formal e pessoal.

Dois princípios primários proporcionam o contexto para as teofanias: (1) Onipresente, Deus não está limitado a um tempo e espaço particulares (1 Rs 8.27; SI 139.7-10; Is 58.8,9). As teofanias, portanto, não anulam sua onipresença. (2) A Bíblia ensina que toda a criação revela a existência de Deus (SI 19.1-6; Rm 1.20). O Senhor designou e formou todas as coisas de tal maneira que elas refletem seus atributos, seu caráter e sua pessoa. A consequência da queda do homem, entretanto, não permite que elas interpretem apropriadamente essa manifestação geral (Rm 1.21ss). Deus, portanto, providenciou uma revelação especial (as Escrituras) para o propósito particular da redenção humana. A teofania é um fenômeno que ocorre dentro dessa revelação especial.

Dessa maneira, contemplar a manifestação do poder de Deus nas forças da natureza ou sua majestade na beleza da criação não chega a ser uma teofania, pois esta sempre é acompanhada por uma revelação verbal que identifica claramente a pessoa de Deus. Nas teofanias, o Senhor se revela para ser conhecido, isto é, um Deus pessoal.

O fato de que as teofanias têm um caráter redentor é visto desde a primeira instância, quando Deus apareceu a Adão e Eva no jardim do Éden, depois da Queda (Gn 3.8) e por meio da revelação final em Cristo, o Deus Encarnado (Ap 1.13ss). Todas as ocasiões em que Deus se revelou desta maneira indicavam algum evento significativo no desenvolvimento do seu programa de redenção, como na renovação da exigência de fidelidade a Abraão (Gn 15), no castigo iminente dos inimigos (Êx 14) ou no comissionamento do profeta com uma mensagem para o povo (Is 6).

As formas de teofanias

As teofanias ocorrem de formas variadas, inclusive precedidas por tempestades, fogo e nuvens, e geralmente são acompanhadas por fenômenos audíveis, como uma voz ou um trovão. Frequentemente existe acompanhamento tangível, como calor, frio ou tremores de terra. Há situações em que a forma não é descrita, e tudo o que a Bíblia diz é que Deus apareceu (Gn 12.1; 17.1; 35.9; 1 Sm 3.21; 1 Rs 9.2; 2 Cr 7.12). Nesses casos, o conteúdo dos encontros é o guia de seu significado. Para o leitor do relato bíblico, são as palavras de Deus que constituem o ponto mais importante do encontro, desde que a forma assumida pelo Senhor não seja mencionada. Onde, porém, a forma é descrita, torna-se um elemento adicional que aponta para o significado do encontro (veja “O Anjo do Senhor” e a “Nuvem de glória”, em seguida).

Sonhos e visões são considerados diferentes, mas também similares à teofania. O sonho envolve uma impressão sobre o indivíduo, a qual é mais física do que sensorial (Gn 28.10ss). Mesmo assim, aplica-se o mesmo princípio. A forma é adaptada ao propósito particular do encontro. Pode-se argumentar que as visões são sensoriais, mas elas de fato são distintas das teofanias materiais. Os sonhos e as visões são mais “flexíveis” do que as teofanias, porque não estão presos aos limites do tempo e do espaço material.

A nuvem de glória

As duas formas dominantes de teofania nas Escrituras são a nuvem de glória e o Anjo do Senhor. A aparição mais vivida da nuvem de glória foi a que ocorreu no monte Sinai (Êx 19.16), onde Moisés recebeu a Lei de Deus; posteriormente ela continuou durante todo o período do deserto. Possivelmente, foi imponente tanto no tamanho como no efeito, pois o povo “tremeu de medo, retirou-se, pôs-se de longe” (Êx 20.18). Essa resposta foi adequada às exigências de Deus, pois a montanha estava interditada para o povo (19.12,21,24); portanto, somente Moisés e os líderes de Israel tiveram permissão para subir (24.9ss). O significado disso é encontrado na associação que essa presença trovejante e abrasadora teria provocado.

Uma possível associação teria ocorrido com a ideia comum da divindade no contexto cultural de Israel. Os deuses de Canaã, Baal e El, eram associados com as tempestades, os trovões e as montanhas. Como as divindades principais do panteão cananeu, pensava-se que ambos habitavam nas montanhas. Os críticos argumentam que esta associação com o Deus de Israel era uma incorporação das noções panteístas na religião de Israel, mas de fato o caso era exatamente o oposto. Deus, com efeito, estabelecia essa associação para declarar a si mesmo o Senhor acima de todos os deuses. Era ele, e não Baal, o único Deus vivo e verdadeiro. Em vez de Baal, era Yahweh (o Senhor) que “faz das nuvens o seu carro, e anda sobre as asas do vento” (SI 104.3). A devoção exclusiva e completa era devida somente a Yahweh (Êx 20.3).

Uma segunda associação com a teofania da tempestade, a qual constitui um tema prevalecente no Antigo Testamento, está entre os tribunais celestiais e a nuvem de glória. O trono de Deus era considerado como que estabelecido acima dos céus, escondido pelas nuvens e cheio de luz. Sempre que a Bíblia dá um vislumbre do trono celeste do Todo-poderoso, esse conceito é reafirmado (Is 6). O significado é que o Senhor estabelecera a presença de seu trono no meio de Israel. A conexão ficou clara quando a nuvem de glória estabeleceu-se acima do Tabernáculo e posteriormente no Templo. Essa presença trazia as bênçãos da proteção divina e da justiça e fazia exigências éticas. A responsabilidade especial de Israel em ser um reino de sacerdotes e uma nação santa (Ex 19.6) estava diretamente relacionada a essa manifestação divina imediatamente presente no meio deles, que começou no Sinai e continuou por toda a vida da nação na terra de Canaã.

Esse entendimento da nuvem de glória provavelmente foi estendido pelos israelitas a teofanias anteriores. Podemos pensar em particular no “fogo fumegante” e na “tocha de fogo” (Gn 15.17) que passaram entre os pedaços do animal como um sinal do compromisso divino com Abraão. O povo de Israel, como a audiência original de Gênesis, possivelmente entendeu que o Deus que fez a Aliança com Abraão era o mesmo que se manifestou na montanha e os acompanharia através do deserto. A promessa “à tua descendência dei esta terra” (Gn 15.18) também seria deles enquanto se moviam em direção a Canaã. A teofania da nuvem de glória identifica-se em termos funcionais com o Espírito Santo (Ne 9.19,20; Is 63.11-14; Ag 2.5). Essa identificação é confirmada na consumação da descida do Espírito Santo sobre os crentes, a nova habitação do Senhor (1 Pe 2.5), no dia de Pentecostes, os quais constituíram o novo Israel (At 2.1-4).

O Anjo do Senhor

A outra forma dominante de teofania nas Escrituras é o Anjo do Senhor, a aparência de forma humana, que geralmente é identificada como Deus. Nem todas as aparições desse anjo especial são identificadas desta maneira (2 Sm 24.16). Na grande maioria dos casos, porém, a identificação é clara, e é feita de forma variada, por uma afirmação explícita (Ex 3.15), pela posse de atributos divinos (Gn 16.10), ao receber adoração (Js 5.14), aceitar sacrifícios (Jz 13.19-23), ser chamado de Deus (Jz 13.22) e perdoar ou mencionar os pecados (Ex 23.21). Instâncias que envolvem o Anjo do Senhor incluem o encontro de Abraão com os três anjos perto de Sodoma e Gomorra (Gn 18), a visita queLó recebeu em Sodoma (Gn 19), Hagarno deserto (Gn 21.9-21), Abraão no monte Moriá (Gn 22.1-19), Jacó em Peniel (Gn 32.24-32), Moisés e a sarça ardente (Ex 3.1-6,13-16), Israel no deserto (Êx 23.20), Balaão na estrada (Nm 22), Israel em Boquim (Jz 2), Gideão em Ofra (Jz 6.11-24), os pais de Sansão (Jz 13), Elias no deserto (1 Rs 19.1-8) e depois da morte do rei Acabe (2 Rs 1.3, 15), os assírios perto de Jerusalém (2 Rs 19.35), Zacarias em suas visões noturnas e os amigos de Daniel na fornalha (Dn 3.25).

O significado fundamental desta figura está na postura de um guerreiro, manifestada para a proteção do povo de Deus e na liderança do exército do Senhor na batalha. Na época patriarcal, ele era o defensor do clã (Gn 15.1), mas do período do Êxodo para a frente era o líder de um exército (Js 5.14) (veja Anjo do Senhor).

Deus, ao assumir uma forma humana temporária, comunicava a Israel que Ele era seu defensor e protetor. Precisavam conhecer a necessidade que tinham de confiar nele e não em sua própria força numérica. Também deviam antecipar a teofania “por excelência”, a qual viria na pessoa de Jesus Cristo. O Anjo do Senhor, Deus manifestado na forma humana, naturalmente antecipava a habitação permanente na carne que o Verbo assumiria na Encarnação. Tanto Jesus como o Anjo são chamados de “Senhor” (Gn 16.7; Jo 20.28) e “Deus” (Gn 48.15,16; Hb 1.8); ambos afirmavam ser o “EU SOU” (Êx 3.2-14; Jo 8.58), lideraram e guiaram o povo de Deus (Êx 14.19; Mt 28.20) e eram comandantes do exército de Deus (Js 5.13-15; Ap 19.11-14). Os paralelos são suficientes para que as aparições do Anjo do Senhor sejam frequentemente designadas como "cristofania” — uma manifestação temporária da segunda pessoa da Trindade pré-encarnada.

Jesus Cristo

Além de sua identificação com o Anjo do Senhor, Jesus Cristo é a teofania consumada, no sentido de que Ele é a reunião completa e permanente das naturezas divina e humana em uma pessoa. “O Verbo se fez carne, e habitou entre nós. Vimos a sua glória, a glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). Ao ultrapassar todas as teofanias do Antigo Testamento, Cristo veio como a sala do trono de Deus (o Templo final, Jo 2.19-21), a plena manifestação do Senhor (Cl 2.9), e trouxe a Palavra de Deus para a humanidade (Hb 1.1-3). Como tal, Ele salva pecadores indignos, não por meio dos esforços deles, mas mediante sua graça inestimável (Tt 3.4); faz exigências éticas para que vivamos de acordo com seu caráter (Tt 2.1) e lidera os exércitos celestiais na defesa de seu povo e na derrota dos inimigos (Ap 2.16).

Fontes e créditos: Quem é quem na Bíblia Sagrada, editado por Paul Gardner, verbete “Teofania”, p. 629–632. Colaboração indicada na obra: Michael J. Glodo. Adaptação com ajustes pontuais.

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