Jesus (Cristo, o Senhor)
O nome de Jesus
Jesus é a forma grega do termo hebraico “Josué”, que significa “Yahweh (o Senhor) salva”. Sem dúvida o nome Josué era bem popular nos dias de Jesus e isso explica o uso ocasional da expressão “Jesus de Nazaré” (para diferenciá-lo de outros com o mesmo nome; veja Mt 26.71 e mais 15 referências). Jesus (de Nazaré) é a figura principal dos evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) e, em muitos aspectos, também do restante do Novo Testamento. Quando os cristãos estudam o NT, observam que Jesus representa também o cumprimento de tudo aquilo para o qual o AT apontava. Jesus, também chamado de Cristo, ou Jesus Cristo, é visto como o Messias há muito esperado e também é considerado o “filho de Davi” (veja Cristo e Senhor).
Podemos ler sobre o significado desse nome em Mateus 1.21; um anjo apareceu a José para anunciar o nascimento e disse: “E lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”. Pode parecer, entretanto, que as pessoas raramente se dirigiam a Jesus como “Salvador”. Em sua canção de gratidão pelo nascimento de Jesus, Maria disse: “E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lc 1.47); mas, com essas palavras, provavelmente referia-se de maneira geral à obra de Deus, que enviou Jesus para salvar. Os anjos disseram especificamente aos pastores: “Na cidade de Davi vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2.11); os samaritanos, os quais creram que Jesus era o Messias, reconheceram: “Este é verdadeiramente o Salvador do mundo” Qo 4.42). Esta denominação, contudo, refletiu-se sobre a vida de Jesus, sua morte e ressurreição, suas palavras e ações, e levou os discípulos, guiados pelo Espírito Santo, a entender que Jesus verdadeiramente era o Salvador que seu nome, dado por Deus, indicava. Este artigo pode apenas elaborar um quadro muito limitado de Jesus, mas traz luz sobre alguns aspectos muito importantes, ou seja, quem ele é, sua vida e missão.
A vida de Jesus
Existem poucas evidências da vida de Jesus fora do registro bíblico. O historiador romano Tácito menciona os cristãos que foram chamados desta maneira por seguirem a Cristo, o qual foi morto por Pôncio Pilatos, na época do imperador Tibério (veja Lc 3.1). Seutonio mencionou alguns judeus que discutiam e criavam tumulto em Roma, instigados por um certo Crestos. Sua referência muito provavelmente era sobre Cristo e os cristãos. Essas discussões, segundo ele, ocasionaram a expulsão dos judeus de Roma (veja At 18.2). Existem numerosas alusões a Jesus feitas por rabinos que viveram em períodos posteriores, alguns dos quais dizem que se tratava de um mágico ou feiticeiro. Uma referência feita por Josefo, o historiador judeu que escreveu para os romanos, fala que Jesus realizou “obras maravilhosas” e que era “o Cristo”; foi morto por Pilatos e apareceu no terceiro dia depois de sua morte para os que o amavam. Josefo vai além e diz que até agora, “a raça dos cristãos” ainda não morreu. Alguns suscitam dúvidas se esta seção dos escritos de Josefo é realmente genuína ou se foi acrescentada depois por historiadores cristãos. Qualquer que seja a conclusão, entretanto, sobre quais partes são ou não genuínas, certamente existem evidências suficientes em outras fontes que comprovam ser Jesus realmente o Cristo e que os efeitos de seu ministério se espalharam, desagradaram seus oponentes e foi morto por ordem de Pôncio Pilatos. O Novo Testamento, todavia, é sem dúvida a principal fonte de informação. Os autores dos evangelhos dão muita ênfase aos eventos concernentes à vida de Jesus, na forma de uma explicação cuidadosa, dirigida aos que desejam conhecer melhor o Filho de Deus.
O nascimento e a infância de Jesus
Os evangelhos falam muito pouco sobre a infância de Jesus. Mateus e Lucas relatam certos eventos sobrenaturais que anunciaram e acompanharam seu nascimento. Um anjo apareceu a Maria e ao seu esposo em diferentes ocasiões. Foi dito a José para que continuasse com sua esposa, embora ela estivesse grávida e ele não fosse o pai. O menino Jesus nasceria da virgem Maria, “porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo” (Mt 1.20). Lucas relaciona essa concepção ao poder do Espírito, pelo fato de Jesus ser chamado de “Filho de Deus” (Lc 1.35). Pormeio de Jesus, o Senhor fazia algo novo para a salvação do mundo. A humanidade era incapaz de alcançar a própria redenção. Todos pecaram e aguardavam o juízo, mas a intervenção divina proporcionou perdão e salvação. Maria demonstrou captar essa verdade, ao proferir palavras as quais enfatizavam que a salvação em Jesus era inteiramente obra de Deus. A salvação de Jesus era “misericórdia” para os pecadores e não um direito há muito merecido pelas pessoas justas (Lc 1.46-50,68,71,72; 2.29-32).
O fato de que Jesus era também o Messias esperado ou o filho de Davi “ungido”, o qual herdaria o trono, é enfatizado em todos os registros de sua infância, principalmente no evangelho de Mateus. Os reis magos, ou “sábios”, vieram do Oriente para encontrar “aquele que é nascido rei dos judeus”. Aqueles homens, os quais não eram israelitas, foram visitá-lo, dirigidos por Deus por meio de uma estrela, a fim de mostrar que a salvação de Jesus e seu reinado teriam um alcance muito além das fronteiras do povo judeu. O fato de Herodes ter ordenado a morte de todos as crianças na área de Belém, numa tentativa de evitar a competição pelo trono, demonstra como as autoridades levaram a sério o nascimento de Jesus (Mt 2.1-17; também Lc 1.32,33; 2.11).
O anjo também indicou a divindade de Jesus, quando disse que Ele seria chamado “Emanuel” — que significa “Deus conosco” (Mt 1.23). João 1.1-4,14 mostra que Jesus era verdadeiramente humano e ainda assim preexistente e divino.
De acordo com a tradição, Jesus foi apresentado no Templo quando era bebê. Novamente é importante notar que este incidente é narrado não simplesmente como a história de uma infância agradável, mas devido ao seu significado para a identificação de Jesus como Salvador e Redentor e devido ao que foi falado na ocasião sobre seu chamado e sua missão. Simeão identificou Jesus como a “salvação” de Deus e “luz para iluminar os gentios”, enquanto a idosa Ana viu o menino e falou da redenção que tinha chegado a Jerusalém (Lc 2.29-32,36-38). Quando Jesus cresceu, a Bíblia diz que “se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele” (v. 40).
O único evento mencionado sobre a infância de Jesus refere-se à visita anual que seus pais faziam a Jerusalém e ao Templo e a uma clara indicação da consciência que Ele tinha de que era “o Filho de Deus”, com uma missão específica. Quando estava com doze anos de idade, Jesus foi com seus pais ao Templo, mas na volta eles o perderam. Encontraram-no no Templo, dias depois, diante dos líderes religiosos, surpreendendo a todos com sua sabedoria e as perguntas que fazia. Ao responder às interrogações preocupadas dos pais, disse: “Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” (Lc 2.41-51).
4 vida adulta de Jesus
Podemos especular que Jesus cresceu e trabalhou como carpinteiro junto com seu pai adotivo (Mc 6.3). Os escritores dos evangelhos demonstram maior interesse em seu ministério público, que começou quando foi batizado por João Batista (na verdade é onde Marcos inicia seu evangelho). Ao submeter-se ao batismo, Jesus identificou-se com os homens e mulheres pecadores e comprometeu-se publicamente numa aliança de fidelidade e obediência ao Pai. Foi ungido publicamente pelo Espírito Santo, o qual desceu sobre ele como uma pomba, acompanhado de um pronunciamento público do céu: “Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo” (Mc 1.10,11). Aqui, um verso sobre o Messias, no Salmo 2.7, une-se com uma parte de Isaías 42.1, que é uma profecia sobre o servo de Deus que viria. Assim, exatamente no início de seu ministério, a missão de Jesus foi enfatizada pelo Pai, pois seria o caminho do rei e também a trilha da obediência e do serviço a Deus que culminaria com a morte na cruz pelo pecado da humanidade.
“Imediatamente” depois do batismo, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, onde foi tentado por Satanás, de uma maneira semelhante à tentação dos israelitas no deserto, na época de Moisés. Onde os hebreus fracassaram tantas vezes, Jesus, que acabara de se identificar com seu povo, venceu, pois não pecou. Rejeitou a tentação de aceitar o reino do Messias nos termos definidos por Satanás. Anulou a tentação de fazer as coisas “da maneira mais fácil”. Para Jesus, ser o Messias significava seguir a vontade do Pai e foi a palavra de Deus na Bíblia que Ele usou para refutar Satanás (Mt 4.1-11 etc.). Sua total submissão às palavras e à vontade do Pai seria o caminho escolhido por Ele, mesmo que no final o levasse à cruz.
Após a tentação, o ministério de Jesus inicia-se. Primeiramente, com uma breve manifestação najudéia, mas, depois da prisão de João Batista, Mateus, Marcos e Lucas registram que Ele se dirigiu ao Norte, para a região da Galiléia. Marcos resumiu a mensagem de Jesus: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15). Durante esse período de proclamação, os evangelistas construíram um quadro das atividades de Jesus. Envolvia uma sequência quase incessante de pregações, conversas, curas e expulsões de demônios. Foi também durante esse período que Ele escolheu seus discípulos, os quais o acompanhariam durante todo seu ministério (Mc 1.16-45; Lc 5; etc.). Uma vez que o número de discípulos estava completo, ou seja, doze, Jesus os designou “apóstolos” (Lc 6.12-16). No meio de tanta atividade, era muito difícil não se encontrar sempre cercado de pessoas, mas Ele insistia em ter um tempo a sós com o Pai, para orar. Muitas vezes só podia fazer isso quando saía no meio da noite para algum lugar onde não fosse perturbado. Mesmo assim, frequentemente os discípulos saiam à sua procura e o traziam de volta ao trabalho, pois afirmavam que muitos o esperavam por causa de suas obras miraculosas (Mc 1.35-37).
As obras e as palavras de Jesus provocavam uma resposta imediata por parte de muitos, onde quer que Ele fosse. As pessoas ficavam maravilhadas e mesmo assim muitas vezes não sabiam como responder. O povo de Nazaré, a cidade onde Jesus fora criado, rapidamente o rejeitou quando Ele leu um texto de Isaías e declarou que aquela profecia se cumpria diante deles (Lc 4.16-30). Enquanto viajava, as multidões o acompanhavam, ansiosas pela realização de muitos milagres. Os líderes religiosos ficavam cada vez mais preocupados, pois viam o povo seguir Jesus em número cada vez maior e percebiam o desafio fundamental que o Filho de Deus fazia às tradições defendidas por eles. Por exemplo, perguntavam por que Ele curava as pessoas no sábado (Mc 3.1-6, 20-30; Mt 12.1-8). Os discípulos e até mesmo a própria família de Jesus demonstravam o quão pouco entendiam sobre tudo o que acontecia (Mc 3.3134;4.10-20; 7.17-23; 7.1-13).
O empenho de Jesus, nessa época, não se limitava apenas ao povo judeu. No evangelho de João, observamos um incidente ocorrido bem no início de seu ministério, provavelmente quando se dirigiu ao Norte, para a Galiléia, depois do batismo, ocasião em que pregou para os samaritanos. Depois de ouvir a mensagem de Jesus, muitos deles ficaram maravilhados com seu ensino e responderam com um entendimento que não era visto entre os próprios judeus: ‘Agora nós mesmos o ouvimos falar, e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4.42; veja Mulher Samaritana). Mais tarde, durante o ministério na Galiléia, quando cresceram as pressões contra ele por parte dos líderes religiosos, Jesus partiu para a região de Tiro, no território dos gentios. Seu encontro com a mulher siro-fenícia, durante essa curta viagem, é especialmente significativo. Ela tinha uma filha possuída por demônios. Embora fosse gentia, implorou para que Jesus expelisse os espíritos imundos daquela criança. A resposta de Jesus deu a entender que sua missão era exclusiva ao povo de Israel. A mulher, entretanto, insistiu, e demonstrou um notável nível de fé e de entendimento sobre a missão e o poder de Jesus. Ele curou sua filha e revelou novamente que, embora sua atual missão fosse com o povo de Israel, as boas novas do Reino de Deus e da salvação de fato seriam para todas as pessoas, e não somente para uma raça.
Enquanto sua vida prosseguia, Mateus, Marcos e Lucas registram o próximo ponto importante no ministério de Jesus. Em suas viagens, Ele chegou também à cidade de Cesaréia de Filipe. Nessas alturas, os discípulos já tinham recebido uma boa dosagem de ensino e visto muitos sinais operados por Ele. Assim, Jesus lhes perguntou: “Quem dizem os homens que eu sou? Responderam eles: João Batista; outros: Elias; e ainda outros: Um dos profetas. Então lhes perguntou: Mas vós quem dizeis que eu sou? Respondendo Pedro, lhe disse: Tu és o Cristo” (Mc 8.27-29). Mateus 16.17 registra a resposta de Jesus a Pedro: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, pois não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus”. Os discípulos pelo menos entenderam algo sobre a verdadeira posição de Jesus. Daquele momento em diante, os escritores dos evangelhos nos dizem que Ele começou a caminhar em direção a Jerusalém e a ensinar que era necessário sofrer e morrer. Em outras palavras, após ouvir a resposta certa de Pedro (Jesus é o Cristo ou o Messias), tratou de redefinir aquele entendimento contemporâneo sobre como deveria ser o Messias. Pedro foi totalmente incapaz de aceitar a explicação e objetou fortemente. Sofreu uma repreensão extremamente severa do Senhor: “Para trás de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço; não compreendes as coisas que são de Deus, e, sim, as que são dos homens” (Mt 16.23).
A diferença entre o entendimento que Jesus tinha sobre seu chamado para ser o Messias e a opinião geral, tornou-se mais e mais pronunciada à medida que Ele se dirigia a Jerusalém. Ao entrar na capital, foi saudado como o Messias pela mesma multidão que poucos dias depois desejava a sua morte. Os discípulos fiéis fugiram e o abandonaram, quando o sofrimento e a perseguição atingiram o grande clímax durante suas últimas horas de vida. No final, Jesus cumpriria sua missão — todo o propósito de sua vida adulta — totalmente sozinho na cruz, e carregaria sobre si todo o castigo dos homens pecadores, quando até mesmo seu Pai celestial pareceu abandoná-lo.
O ensino de Jesus
O ensino de Jesus cobriu quase todas as áreas da existência humana. Alguns deles foram dirigidos somente aos discípulos e outros, ao povo em geral. Alguns foram proferidos num ambiente de confronto com os líderes religiosos da época e outros foram ministrados a título de interpretação dos milagres que operava. Jesus ensinou por meio de palavras e de ações. A seguir, citamos brevemente quatro das áreas mais importantes de seu ensino e mencionamos o uso que fazia das parábolas.
Sobre si mesmo
O ensino de Jesus sobre si mesmo era dado por meio de palavras e ações. Desde o início, Ele estava consciente de sua missão e seu propósito na vida e na morte. Rapidamente demonstrou um relacionamento único com Deus. Do incidente aos doze anos de idade, onde revelou muita sabedoria e a necessidade de estar “na casa do seu Pai”, até a insistência em que as palavras que proferia e as obras que fazia eram as palavras e obras do Pai (Jo 14.10; etc.), tudo o que disse apontava para sua posição única como “o Filho de Deus”. O Senhor era seu Pai celestial, de quem tinha um conhecimento íntimo e pessoal. Sua grande oração pelos discípulos e por todos os que posteriormente creriam nele, registrada em João 17, novamente demonstra a profundidade de seu relacionamento com o Pai e a unidade de propósito e de vontade entre ambos. A posição de Jesus como Filho de Deus também é vista na grande autoridade que revelava. Tinha poder para expelir demônios e tratar com o mundo dos espíritos malignos simplesmente mediante a fala. Antes que as multidões entendessem, os demônios reconheceram que Jesus era o Filho de Deus, com poder sobre eles (Mc 3.11; 5.7). Ele também controlou a tempestade violenta com um simples comando e mostrou sua autoridade sobre o mundo da criação (Mt 8.24-27).
Enquanto revelava esse relacionamento com o Pai, Jesus ensinou seus discípulos mais profundamente sobre quem Ele era. Os apóstolos precisavam aprender que em Cristo podiam conhecer Deus. Em uma ocasião, Ele se voltou para Filipe e disse: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como dizes tu: Mostra-nos o Pai? (Jo 14.9). Depois continuou e disse: “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo. Antes, é o Pai que está em mim quem faz as obras” (v. 10).
Jesus nunca demonstrou orgulho pelo fato de ser Deus; mas quando seu ensino sobre si mesmo é examinado e os versículos como os mencionados acima são vistos no contexto, a conclusão de que Ele ensinou ser o próprio Deus em suas palavras e obras parece inevitável (pelo menos para os que confiam nele e aceitam a palavra dos apóstolos e a interpretação deles sobre esses eventos). A ênfase sobre ser o “Filho de Deus”, “enviado” por Deus e possuidor da autoridade como “filho de Davi”, sua aceitação do título de “Cristo” dado por Pedro, seu ensino em João 14 a 17 sobre seu relacio-namento íntimo (e preexistente; Jo 17.5, 24) com o Pai, tudo isso proporciona um acúmulo de evidências de que Jesus ensinava sobre sua divindade, pelo menos no círculo mais íntimo de amigos e discípulos.
A reação dos líderes religiosos, entretanto, indicava que também começavam a assimilar algo das extraordinárias alegações de Jesus sobre si mesmo, quando em várias ocasiões o acusaram de blasfêmia. Por exemplo, João relata o seguinte confronto: “Jesus lhes disse: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. Por este motivo, os judeus ainda mais procuravam matá-lo; não só quebrava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5.17,18). A resposta de Jesus tinha o objetivo de levar o ensino sobre si mesmo mais adiante. Ao referir-se a si mesmo como “o Filho”, disse que nada fazia por conta própria, “mas somente o que via o Pai fazendo”. Falou sobre o amor do Pai pelo Filho e como Deus podia ressuscitá-lo dos mortos e que o Filho também podia dar a vida a quem quisesse (w. 12-21). Jesus atribuía a si mesmo prerrogativas divinas e prosseguiu, incluindo junto com elas o fato de que o Pai lhe dera o direito do julgamento: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai” (v. 23).
Uma das expressões mais claras dessa alegação da divindade são as assim chamadas declarações “Eu Sou”. Quando Jesus declarou que existia antes de Abraão e disse “antes que Abraão nascesse, eu sou!”, referia-se a si mesmo como Yahweh (“ e u s o u o q u e sou”, Êx 3.14). Os líderes religiosos novamente viram isso como uma blasfêmia e tentaram apedrejá-lo.
Jesus também fez com que as pessoas pensassem nele como o Messias. Desde sua pregação sobre o cumprimento da profecia de Isaías, na sinagoga, até a realização de milagres maravilhosos, tudo fazia com que o povo judeu comum o encarasse como uma figura messiânica; entretanto, passo a passo, Ele também ensinou que o entendimento geral de que o Messias seria um guerreiro político que derrotaria os romanos e governaria em Jerusalém não era parte de seu chamado. Em suas conversas com os discípulos, concentrou-se em revelar-se como o servo sofredor de seu povo. Alguns estudiosos sugerem que sua preferência por referir-se a si mesmo como “o Filho do homem” foi deliberada, pois podia usá-la como sua própria definição de seu papel como o Messias que sofreria e morreria. Depois da confissão de Pedro, de ser Jesus o Cristo, lemos em Marcos 8.31: “Então começou a ensinar-lhes que importava que o Filho do homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que depois de três dias ressurgisse” (veja também 10.45). O uso da expressão “Filho do homem” por Jesus, contudo, também carregava em si a grande autoridade celestial que nos faz lembrar do Filho do homem que esteve na presença de Deus na profecia de Daniel (Dn 7.13). Talvez fosse aquele quadro que Jesus tinha em mente quando disse aos líderes judeus, no seu julgamento: “Mas de agora em diante o Filho do homem se assentará à direita do Deus Todo-poderoso” (Lc 22.69).
Quando Jesus demonstrava e falava sobre sua autoridade, sempre era a do tipo mais elevado possível. Seja falando sobre a autoridade que o Pai lhe dera para julgar o mundo Qo 5.27), seja tratando de sua autoridade sobre os demônios (Mc 1.27) e a criação (Lc 7.8) que demonstrava possuir nas obras miraculosas que operava entre o povo, Ele claramente provava que nenhum outro homem a possuía, pois originava-se apenas no céu.
Quanto mais o ensino de Jesus sobre si é examinado, mais inevitável se torna a conclusão de que se tratava de um homem perfeito que também era Deus. A fé e a confiança em Jesus, Deus e Homem, em suas palavras, obras e ensinamentos, tornam-se a base do cristianismo.
Sobre Deus, o Pai
Temos visto como Jesus falou sobre sua comunhão íntima com o Pai; mas Ele ensinou muito mais sobre o próprio Deus. O Pai é o criador do mundo (Mc 13.19), o qual continua, em sua Providência, a sustentar e cuidar de todas as coisas (Mt 10.29). A vontade do Pai é soberana e deve ser obedecida por todos, inclusive pelo próprio Jesus (Mt 26.39). Somente o Pai conhece o dia do retorno de Cristo (Mt 24.36). Jesus, porém, ensinou sobre a paternidade de Deus sobre indivíduos e não somente em um sentido geral como o Pai do povo de Israel. Os hebreus certamente entenderam a paternidade de Deus neste último sentido, mas a insistência de Jesus sobre a possibilidade de uma comunhão individual com o Pai foi bem enfatizada. Isso, claro, é bem expresso na primeira frase da oração do Senhor: “Pai nosso que estás nos céus” (Mt 6.9).
Mediante o que Jesus ensinou foi possível conhecer o Pai, por meio do conhecimento de Cristo (Jo 14.6,7). Quando falou com Maria, depois da ressurreição, Ele se referiu ao meu Pai e vosso Pai” (Jo 20.17). O cuidado direto de Deus pelo crente individualmente foi ensinado por Jesus em várias ocasiões. O Pai tem tanto interesse pelas necessidades de seus filhos, até mesmo na questão de comida e bebida, que Jesus os incentivou a não se preocupar com o dia de amanhã (Mt 6.31-34).
Jesus também ensinou que existe uma relação especial entre o Senhor como “Pai” e o reinado de Deus. O Pai, que preparou o reino para os discípulos de Jesus “desde a criação do mundo”, cumprirá esta promessa. Os justos entrarão nesse reinado e herdarão suas bênçãos (Mt 13.43; 25.34; Lc 12.31,32).
Sobre o Reino
O ensino de Jesus sobre o reino de seu Pai, o reino de Deus, tem provocado debates consideráveis entre os estudiosos, embora ninguém duvide da extrema importância do assunto (Mt 4.17; Mc 1.15; Lc 4.43). Os referir-se tanto ao “reino dos céus” (no evangelho de Mateus) como ao “reino de Deus”, Jesus ensinou que esse reinado estava presente, “próximo” e diretamente relacionado com o seu advento: “Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado a vós o reino de Deus” (Mt 4.7; 12.28; 21.31; Mc 1.14,15; Lc 11.20; 17.20,21; etc.); entretanto, Jesus também ensinou que seria um evento futuro e que o reino seria herdado pelos seus discípulos (Mt 25.34; Lc 11.2; 22.18).
O reino de Deus” é primariamente uma descrição do governo dinâmico de Deus sobre este mundo, visto especialmente nas boas novas do advento do Redentor, isto é, Jesus. Na vida e no ministério de Cristo, esse governo foi diretamente experimentado e revelado para os que tiveram olhos para ver quem era Jesus. Nem todas as pessoas foram capazes de ver a verdade do reino. De fato, o uso que Cristo fez das parábolas para ensinar sobre o reino deixa claro que o entendimento veio por meio da revelação (Mc 4.10-12). Jesus, o rei, esteve presente entre os judeus e gentios e ensinou que tinha toda autoridade e poder até mesmo sobre os demônios.
A entrada e a possessão do reino, entretanto, e o direito a todas as suas bênçãos são limitados aos que reconhecem Jesus como Senhor, pedem perdão a Deus pelos pecados e se comprometem a servi-lo de todo o coração. Cristo deixou isso bem claro para os líderes religiosos da época, quando lhes disse: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Pois João veio a vós a fim de vos mostrar o caminho da justiça, e não crestes nele, mas os cobradores de impostos e as meretrizes creram. Vós, porém, mesmo vendo isto não vos arrependestes para crerdes nele” (Mt 21.31,32). Então transmite uma parábola a qual mostra como os líderes rejeitavam o Rei que havia chegado, exatamente como seus ancestrais tinham rejeitado os profetas.
A natureza “presente” do reino é tal que opera em silêncio entre os homens, quando as pessoas chegam a reconhecer o Redentor. Ao mesmo tempo, entretanto, Jesus olhava adiante em seu ensino. Um dia, esse governo de Deus seria revelado a todos os homens.
É importante notar aqui que Jesus nunca reduz a soberania plena de Deus sobre todas as pessoas, quer reconheçam a Cristo como Senhor quer não; entretanto, a “participação” no reino e a oportunidade de experimentar a bênção de ser membro dele, por meio da fé em Cristo, é limitada ao povo de Deus. No começo da “era vindoura”, entretanto, que começará quando Cristo voltar, como diz o apóstolo Paulo: Ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra (Fp 2.10). Naquele tempo, quando Cristo se revelar totalmente para todas as pessoas, será visto como um Rei fiel ao seu povo e julgará os ímpios com a condenação eterna. Os que tiverem rejeitado a oferta do reino por meio do advento de Jesus Cristo e virado as costas para o amor de Deus que lhes foi oferecido ficarão debaixo do juízo do Rei.
Repetidamente, quando Jesus ensinava sobre o reino, advertia quanto ao dia do futuro julgamento e à diferença entre a experiência do justo, naquele dia, e a daqueles que nunca se voltaram para Cristo (Mt 13.37-43; 25.34, 4 1 ; etc.). O Antigo Testamento olhava para a frente, para o tempo em que Deus estabeleceria seu governo sobre a Terra. Seria um governo perfeito, que determinaria uma ordem totalmente nova. O Senhor redimiria seu povo Israel e castigaria toda a maldade. Jesus ensinou que o Todo-poderoso agia como o Deus Salvador e Redentor, pois a era messiânica havia chegado para eles. Ele era o Messias. Jesus convidou as pessoas a aceitar o Rei e seu reino, quando as chamou ao arrependimento dos pecados e à volta para Deus. A consumação final daquele reino e a herança plena de todas as suas bênçãos estariam reservadas somente para o retorno de Cristo em glória (Mt 24.30,31). Os seguidores de Cristo orarão: “Venha o teu reino” (Mt 6.10), pois olham adiante, para o retorno do Rei, para o dia em que Ele se revelará totalmente a todas as pessoas. Anseiam pela revelação plena da glória de Cristo, pela herança das promessas da vida eterna, mas também pela total libertação do mal e do pecado.
O ensino de Jesus sobre o reino de Deus não se limitou apenas a longas sessões didáticas ou parábolas onde essa frase era utilizada, mas também evidenciava-se nas obras que fazia, em seus milagres, na maneira como expelia demônios e, acima de tudo, em sua autoridade para perdoar pecados (Lc 7.48 a 8.1; 6.20,24-26; etc.).
Sobre o Espírito Santo
A obra do Espírito Santo é claramente vista por toda a vida de Jesus. Foi concebido pelo Espírito (Lc 1 .1 5 ); o Espírito veio sobre Ele publicamente no batismo (Lc 3.22); o Espírito o levou ao deserto, onde foi tentado pelo diabo (Lc 4.1); o Espírito ungiu-o para pregar as boas novas (Lc 4.18); e o Espírito deu-lhe poder para expelir os demônios (Mt 12.28). Jesus, porém, ensinou mais sobre o Espírito Santo.
Três dos Evangelhos relatam uma ocasião em que Jesus foi acusado de expelir demônios pelo poder de Belzebu (Mt 12.22-32; Mc 3.22-30; Lc 11.14-23). A seguir Cristo declarou que a blasfêmia contra o Espírito Santo era um pecado imperdoável. O pronunciamento específico de Jesus está diretamente ligado à expulsão dos demonios. Sua obra de estabelecer o governo de Deus, vista tão claramente no poder que tinha sobre os demônios, é mostrada aqui como a manifestação do Espírito Santo (“Se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado a vós o reino de Deus”, Mt 12.28). De fato, a obra do Espírito é essencial para o reino de Deus. E pelo poder do Espírito Santo que os espíritos malignos e os demônios são derrotados e a obra de Cristo segue adiante.
Jesus também ensinou que o Espírito Santo opera a regeneração na vida do crente, a fim de que possa entrar no reino de Deus (Jo 3.5). Ensinou que o Espírito ajuda o cristão a adorar adequadamente, em espírito e em verdade (Jo 4.24). O Espírito também inspira as Escrituras (Mc 12.36) e capacita o cristão a falar ousadamente sobre sua fé (Mt 10.19,20). Jesus também ensinou que os crentes receberiam o Espírito Santo individualmente, depois que Ele fosse glorificado (Jo 7.38,39). Havia, portanto, uma distinção entre a maneira como o Espírito Santo estava presente no ministério de Jesus e na proclamação do reino de Deus e como estaria presente depois que Cristo voltasse para a glória. Em João 14 a 16, Jesus refere-se a Ele como “o Espírito da verdade” e o “Consolador”. O Espírito é o “outro Consolador” e vive para sempre (cf. Jo 14.15-17). Desta maneira, o Espírito é o que convence o mundo dia após dia e ainda permanece com o cristão, na liderança e na proteção da verdade e interpretando as Escrituras (Jo 16.8-13). Jesus ensina que será prerrogativa do Espírito Santo glorificar a Cristo e fazê-lo conhecido nas futuras gerações das pessoas que não terão visto Jesus em carne e osso (Jo 16.12-16).
Fica claro, pelo ensino de Jesus, que em todas as suas várias obras o Espírito Santo testemunhará sobre Jesus e glorificá-lo-á. Fará isso por meio do novo nascimento, a fim de testificar e explicar sobre a verdade de Cristo (Jo 14.26) e conceder poder aos cristãos para testemunhar de Jesus (15.26,27). O Espírito Santo seria concedido pelo Filho (15.26; 16.7) e pelo Pai (14.16,26).
O uso das parábolas por Jesus
Jesus usou as parábolas em aproximadamente um terço de seu ensino nos evangelhos. Fosse diante das multidões, com seus discípulos ou com os líderes religiosos, esta forma de instrução era utilizada regularmente (Mt 13.34). Trata-se de histórias tiradas da vida normal, as quais eram aplicadas para apresentar verdades espirituais. Muitas parábolas que Jesus contou mencionavam aspectos da vida local que atraíam a atenção de sua audiência. Por exemplo, quando Jesus contou a parábola do semeador, a figura seria um lugar comum; de fato talvez houvesse algum agricultor que trabalhasse num campo próximo ao local onde estavam (Mt 13.3-13). As parábolas raramente eram alegorias. Os detalhes das histórias não eram significativos, pois elas enfatizavam apenas um ou dois pontos principais. Embora sem dúvida a intenção fosse captar o interesse das pessoas no que era dito, as parábolas de Jesus não serviam para que todos entendessem imediatamente o que Ele ensinava.
Em Mateus 13.10-17 (também Mc 4.10-12; Lc 8.9,10) Jesus faz alguns comentários notáveis sobre a inteligibilidade de seu ensino. Depois da Parábola do Semeador, ficou claro que a mensagem não fora captada nem mesmo pelos discípulos. Perguntaram-lhe por que usava parábolas e Jesus respondeu: “Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado. Ao que tem, se lhe dará, e terá em abundância. Ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas: Porque eles, vendo, não vêem: ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías: Certamente ouvireis, mas não compreendereis. Certamente vereis, mas não percebereis. Pois o coração deste povo está endurecido, e ouviram de mau grado com seus ouvidos, e fecharam seus olhos, para que não vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, compreendam com o coração, se convertam e eu os cure”.
Esses estranhos comentários devem ser vistos à luz do ensino de Jesus sobre o reino de Deus. Muitas parábolas na verdade eram usadas para ensinar sobre um aspecto da natureza desse reinado. O problema com a compreensão das parábolas não estava tanto no caso de as histórias serem ilustrações boas ou ruins, mas sim na verdade que Jesus ensinava. Os segredos do reino de Deus, agora revelados pela própria pessoa de Cristo, por seus ensinamentos e suas obras, exigiam uma resposta e uma mente aberta para ver, crer e comprometer-se com este “mistério” revelado. Para os que não respondiam adequadamente, as parábolas serviam apenas para obscurecer ainda mais a natureza do reino de Deus.
Desta maneira, existe um senso de urgência nas parábolas, que requer uma resposta da audiência. Os ouvintes precisam decidir e abraçar esse reinado com sua alegria e suas bênçãos, pois o reino de Deus é como um tesouro enterrado ou como uma pérola de grande valor, a qual é tão valiosa que vale a pena vender tudo o que se tem para obtê-la (Mt 13.44-46). Mais do que isto, entretanto, o reino breve virá em toda a sua plenitude, no “final dos tempos”. Quando isso ocorrer, será como uma rede de pesca, que apanha toda espécie de peixes, quando é trazida à superfície; os bons serão separados dos maus e uma “fornalha de fogo” aguarda os perversos (Mt 13.4750). Assim, Jesus apresenta uma situação de crise. O governo de Deus, manifestado em Cristo e em seu ministério, aparentemente é pequeno no momento, mas crescerá dramaticamente, como indicou a Parábola da Semente de Mostarda (Mt 13.31-32; etc.). Em parábolas como essas, Jesus revela sua convicção pessoal no sucesso de seu ministério, apesar de o caminho para a realização total necessariamente passar pela cruz.
A maior dificuldade para os judeus dos dias de Jesus não era compreender que o reino de Deus viria em poder. Há muito tempo acreditavam nisso e esperavam. Pelo contrário, o problema deles residia nesta revelação do “mistério” do reino: era a vontade de Deus que esse reinado se manifestasse no advento do Senhor Jesus Cristo, não em poder, mas para servir e sacrificar sua vida. A obra de Cristo, com um começo aparentemente tão pequeno e insignificante, que parecia terminar no sofrimento e na vergonha da cruz, era, na verdade, a precursora essencial da revelação completa do reino em todo o seu poder e plenitude, que ocorreria numa data posterior (o dia da volta de Cristo).
Abraçar o reino, portanto, significava adotar um entendimento totalmente novo dos propósitos do Senhor para este mundo. O governo de Deus não seria imposto sobre ninguém, mas era oferecido ao mundo, na pessoa de Cristo. Tornar-se “filho do reino” (Mt 13.38) envolve crer na revelação de Deus em Jesus e receber a direção do seu reinado em humildade e confiança, “como uma criança” (Mc 10.15; veja também Mt 5.3-10).
As obras de Jesus
Os milagres
Os milagres de Jesus também revelavam muito sobre quem Ele era e a natureza de seu reinado. Podemos ver o operador de maravilhas, o homem de grande amor e compaixão, o homem que veio de Deus e cumpriu o desejo de seu Pai. Aqui também é revelada a autoridade e o senhorio de Jesus: sua autoridade sobre as enfermidades, nos milagres de cura (Mt 8.1-4); sua autoridade sobre os gentios (Mt 8.5-13); sua autoridade sobre o restante da criação, como, por exemplo, sua capacidade para acalmar a tempestade (Mt 8.23-27); sua autoridade sobre o mundo espiritual, na maneira como era capaz de expelir demônios com apenas uma palavra (Mt 8.28-34); e, mais surpreendente de tudo, sua autoridade sobre a vida e a morte (Mt 9.18-26).
Tal autoridade não deixa dúvidas sobre a divindade de Jesus, mas também demonstra novamente que o reino de Deus havia chegado. Os que presenciaram e experimentaram os milagres estavam diante do que “é maior do que Jonas” (Lc 11.32) e, como no caso das parábolas, encontravam-se diante da necessidade de dar uma resposta. Eles viram a mão de Deus no que era feito e responderam com fé? Contemplaram a “glória” de Jesus? Perceberam que os milagres eram “sinais” (uma palavra usada especialmente no evangelho de João), que apontavam para o reino e o Rei? Praticamente em todas as manifestações vemos exemplos de diferentes respostas. Depois do primeiro milagre, quando as águas se transformaram em vinho, no casamento em Caná, a Bíblia diz que o sinal revelou a glória de Jesus “e seus discípulos creram nele” (Jo 2.11).
Alguns indivíduos demonstravam fé em Jesus antes da realização do milagre (Mt 8.5-13); em algumas ocasiões, mostravam depois (Jo 2.11); outras vezes simplesmente não demonstravam qualquer tipo de fé (Mt 13.53-58). Muitos consideravam Jesus como um operador de milagres, mas mesmo assim não procuravam olhar mais profundamente, para aprender sobre Ele e crer nele. E interessante que mesmo os próprios irmãos de Jesus gostavam da ideia de que fosse um operador de milagres (Jo 7.3,4), embora a Bíblia diga que “até os seus irmãos não criam nele” (Jo 7.5).
A resposta de fé e confiança aos milagres era, na verdade, uma aceitação do reino de Deus entre eles. Os milagres eram uma parte do advento do reinado, e representavam as obras do Rei, o próprio Messias. Daí a revelação da “glória” mencionada em João 2.11 e o relato sobre os milagres feitos por Cristo, a fim de que “creiais que Jesus é o Cristo, o filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). Quando Pedro creu em Jesus e andou em sua direção sobre a água, mesmo com uma fé muito deficiente, reconheceu no andar do próprio Cristo sobre a água que estava na presença do “Filho de Deus” (Mt 14.33).
A resposta oposta era uma indicação direta da relação entre os milagres e o reino. Quando Jesus olhou para cidades como Corazim e Betsaida, nas quais realizara muitos milagres, viu a falta de arrependimento. Então comparou-as com Sodoma e as advertiu sobre o horror que as esperava no dia do juízo (Mt 11.20-24).
A obediência de Jesus ao Pai
Enviado pelo Pai (Jo 3.34; etc.), amado pelo Pai (5.20; etc.) e dependente do Pai (14.28) — os evangelhos mostram que a obra de Cristo envolveu a revelação da mente e da vontade do Pai que estava no céu. Somente o próprio Jesus conhecia perfeitamente a mente do Pai e cumpria perfeitamente a vontade dele (Mt 11.25-27; Mc 1.11; Jo 5.30; 10.18). As mensagens que proferiu eram somente as palavras que o Pai lhe dera e estavam diretamente ligadas às obras que fazia, as quais também lhe foram dadas para realizar pelo Pai: “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo. Antes, é o Pai que está em mim quem faz as obras” (Jo 14.10).
As obras que Jesus fez e as palavras proferidas por Ele eram aquelas que cumpriam os propósitos do Pai (Jo 15.15); por isso suas mensagens podiam ser identificadas com as palavras do Pai (Jo 14.24). Mesmo quando estava no Jardim Getsêmani, pouco antes de ser preso e crucificado, Jesus orou: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26.39). Jesus, o Filho eterno, sabia que sua missão fora dada pelo Pai e entendia que sua tarefa era cumprir esta missão, que envolvia sua vinda para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10) e o levaria à cruz.
A caminhada de Jesus em direção à cruz
Jesus revelou muito sobre si mesmo por meio de seu ensino, suas obras miraculosas e sua obediência ao Pai. Seu ministério, entretanto, bem como suas obras, revelaram muitas vezes como Ele entendia qual seria o final, desde o princípio. Ele viera “para salvar o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Todas as pessoas precisam da salvação, ou enfrentarão a ira de Deus, no julgamento do pecado. Em muitas ocasiões, Jesus chamou a atenção do povo para a necessidade do perdão. Perdoou o pecado com autoridade (Lc 7.47,48); Mt 16.24,25). Advertiu os que não respondiam aos milagres e ao seu ensino. A maior, porém, de todas as suas obras, a da salvação, aconteceria quando Ele sofresse e morresse na cruz. Tudo o que fez de uma maneira ou outra ajudou em sua caminhada em direção à cruz.
Jesus considerava esta missão como o cumprimento das Escrituras (Mc 9.12; Mt 26.24; Lc 24.25-27). Gentilmente, e diante de alguma oposição, mesmo por parte dos discípulos, Ele ensinou que aquele que reconheciam como o Messias teria de sofrer e morrer (Mc 8.29-33). Seis dias depois de Pedro ter confessado que Jesus era o Cristo, aconteceu a Transfiguração. O Filho de Deus foi revelado em sua glória, conversando com Elias e Moisés (Mc 9.2-12). Lucas registrou que o assunto da conversa, na presença de Pedro, Tiago e João, foi a morte iminente de Jesus em Jerusalém (Lc 9.31). Quando Cristo soube que já era o tempo, de acordo com a vontade do Pai, encaminhou-se resolutamente para Jerusalém, onde sabia que o aguardavam muitas provações (Lc 9.51; 17.11). Explicou essa jornada aos discípulos em termos de cumprimento das Escrituras (Lc 18.31-33). Quando chegou perto da cidade santa, novamente a natureza deliberada da missão de Jesus foi vista, quando mandou trazer um jumentinho, sobre o qual entrou em Jerusalém (Lc 19.28-44). Mateus 21.5 mostra esse evento como o cumprimento das Escrituras. O ato de expulsar os cambistas e outros vendedores do Templo também era uma ação destinada a determinar a diferença entre o Evangelho de Cristo e as práticas dos judeus, consideradas aceitáveis naqueles dias. Nada mais provocaria uma reação tão clara (Mt 21.12-17, 23-27).
A obra de Jesus Cristo só estaria completa quando ele fosse levantado na cruz, o peso do pecado, lançado sobre seus ombros, o preço, pago e a salvação, efetivada. Assim, suas palavras “está consumado” eram mais do que uma simples aceitação da morte; eram também um reconhecimento de que aquela parte do trabalho estava concluída e Ele realizara a vontade do Pai até o final (Jo 19.30).
A morte de Jesus
A grande obra de Jesus na cruz precisa ser examinada, se desejamos saber mais sobre quem é Ele e o que tem feito pelos que confiam nele. Conforme disse o apóstolo Paulo: “mas nós pregamos a Cristo crucificado”(l Co 1.23). E essa obra permanece como o coração do compromisso cristão e da fé em Jesus; é na cruz que os propósitos de Deus para a salvação são realizados e onde verdadeiramente vemos Jesus como o “Salvador”.
A crucificação
Os romanos condenaram Jesus a morrer crucificado, um evento registrado em todos os evangelhos (Mt 27.35-37; etc.). Esta morte extremamente desagradável e dolorosa era amplamente usada naqueles dias e foi executada após Jesus ser severamente espancado e torturado (Mt 27.28-31). Os procedimentos iniciais contra ele foram conduzidos pelos judeus. Estavam com medo de seu poder e autoridade sobre o povo e também temerosos de seus ensinamentos, os quais desafiavam totalmente a abordagem deles sobre Deus, em praticamente todos os pontos. Depois de uma audiência diante do Sinédrio, na qual a acusação principal era a de blasfêmia, que exigia a pena de morte (Mt 26.57-68), Jesus foi levado diante da corte romana, presidida pelo governador Pôncio Pilatos (Mt 27.11-31). Ali, as acusações mudaram. Sem dúvida, para conseguir a pena de morte, os judeus acusaram Jesus de ter-se proclamado “rei dos judeus”, em nítida rebelião contra Roma. Jesus não negou essa acusação (w. 11-14). Finalmente, devido à enorme pressão feita pelos líderes religiosos e pela multidão que se juntara a eles para apoiá-los, e aparentemente contra a julgamento pessoal de Pilatos, Jesus foi condenado à morte.
Como já vimos anteriormente, Jesus sabia que iria morrer. O relato dos evangelhos sobre a crucificação enfatiza a voluntariedade da morte de Cristo (Ele foi para a cruz por vontade própria e deu sua vida por seu amigos, Jo 10.18; 15.13) e a necessidade de seu padecimento, dentro dos planos de Deus. Por exemplo, quando Pedro sacou a espada e feriu um dos homens que foram prendê-lo, Jesus o lembrou de que, se quisesse, teria pedido ao Pai celestial que enviasse legiões de anjos em sua defesa; mas as Escrituras precisavam cumprir-se, mediante a sua morte (Mt 26.53,54; veja também Jo 19.28; etc.).
Jesus morreu entre dois criminosos. Durante todo o longo e doloroso tempo em que permaneceu na cruz, até sua morte, a multidão o insultava (Mt 27.41-44); ainda assim, Cristo demonstrou sua prerrogativa divina, ao conceder o perdão a um dos ladrões ao seu lado, que demonstrou sincero arrependimento (Lc 23.39-43).
Um sacrifício pelos pecados
A morte de Jesus na cruz foi sacrificial, um fato que ficou evidente, de acordo com o evangelista João, logo no começo do ministério de Cristo, quando o Batista referiu-se a Ele como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). A evidência mais clara de que Jesus encarava sua própria morte com naturalidade está no relato da última Ceia. Ali, Cristo estabeleceu um pano de fundo do Antigo Testamento, quando passou o pão e o vinho ao redor: “Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. Então ele tomou a cálice, e, tendo dado graças, deu-o aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos. Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que é derramado por muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.26-28). No AT, o sangue dos animais sacrificados era derramado quando se faziam alianças entre Deus e o seu povo ou quando eram renovadas (Gn 15; Êx 24; etc.). Na morte de Jesus, para a qual o pão e o vinho apontavam, uma nova aliança foi estabelecida entre o Senhor e seu povo, pela qual todos conheceriam a Lei interiormente e experimentariam a presença de Deus com eles de uma maneira nova e mais pessoal (Jr 31.31; Hb 8).
A relação entre a morte de Jesus e a remoção dos pecados leva a um entendimento de um sistema sacrificial do AT, no qual diferentes sacrifícios eram feitos para diversas necessidades; os escritos apostólicos consideravam a obra redentora de Cristo na cruz como o cumprimento de todo esse sistema sacrificiai (Rm 6.10; Hb 7.27; 9.12; 1 Pe 3.18; etc.). Jesus morreu como um sacrifício de expiagão, feito de uma vez por todas (Rm 3.25). Trouxe reconciliação entre o homem pecador e o Pai (Rm 5.11; 2 Co 5.18,19). Na cruz, o Rei Jesus, como representante de seu povo, morreu para trazer salvação (G1 2.20). Em sua morte, Cristo colocou-se no lugar do homem pecador, como Redentor (Mc 10.45). Cumpriu o julgamento legal sobre o pecado para todos os que têm fé nele. Devemos notar aqui que Lucas refere-se a Jesus morrendo “num madeiro”. Provavelmente usou essa palavra deliberadamente, para lembrar aos leitores que Jesus, dessa maneira, morrera sob a maldição da lei (At 5.30; 10.39; 13.29; veja Dt 21.23). Esse argumento também é usado por Paulo, o qual ensinou que, sobre a cruz, Jesus morreu “fazendo-se maldição por nós”, para nos “resgatar da maldição da Lei” (Cl 3.13).
Para considerar o sacrifício de Cristo o cumprimento de toda a lei sacrificial do Antigo Testamento, o tempo de sua morte não deve ser ignorado. Jesus morreu durante a Páscoa, sugerindo que Ele também é considerado a realização do sacrifício pascoal (Lc 22.15). Provavelmente era isso que João Batista tinha em mente (Jo 1.29) e também, com certeza, o que Paulo pensava em 1 Coríntios 5.7: “Pois Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós”.
Vitória sobre a morte e Satanás
A vitória sobre Satanás e suas forças demoníacas é claramente demonstrada na paixão e morte de Cristo. Ele reconheceu isso quando se dirigiu aos que foram enviados para prendê-lo e disse: “Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas” (Lc 22.53). Jesus, porém, também sabia que sua crucificação ocasionaria a queda de Satanás: ‘Agora é o tempo do juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo” (Jo 12.31). Ao tomar sobre si mesmo o juízo de Deus sobre o pecado, Cristo removeu o medo do julgamento e da condenação eterna de todo o que se submete à sua autoridade. Essas pessoas estão assim livres da “escravidão” causada pelo “medo da morte” (Hb 2.15). De fato, como ser humano, Jesus compartilhou as experiências de todos nós, “para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (v. 14).
A morte entrou no mundo como castigo de Deus sobre os que seguem a Satanás. Desta maneira, ela é a evidência mais clara da pecaminosidade do homem e também torna-se uma clara evidência do poder do diabo. A remoção do juízo da morte e do medo que a acompanha nos dá uma prova clara da derrota de Satanás. Ao tomar a morte sobre si, em seu auto-sacrifício, Jesus morreu no lugar dos que mereciam a condenação. Porém, os que confiam nele e o servem não precisam mais temer a morte, pois reconhecem que o poder de Satanás foi quebrado de uma vez por todas na cruz. A morte não podia reter Jesus. Por isso, o Pai o ressuscitou dentre os mortos e o exaltou em glória. Como diz o apóstolo Paulo: “E, tendo despojado os principados e as potestades, os expôs publicamente ao desprezo, e deles triunfou na cruz” (Cl 2.15). Para todo o que crê em Cristo, ocorreu uma transferência: “(O pai) nos tirou do poder das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13).
A ressurreição de Jesus
A Bíblia também ensina que Jesus ressuscitou dentre os mortos por Deus Pai. Os evangelhos nos dizem que o milagre da ressurreição aconteceu “no terceiro dia”, isto é, depois da crucificação, cedo, na manhã do primeiro dia da semana, que agora chamamos de domingo. Não há nenhuma descrição da maneira como Jesus ressuscitou. De fato, embora a pedra que fechava o túmulo tenha sido removida por um anjo do Senhor (Mt 28.2), ele apenas revelou que a ressurreição já havia ocorrido. Os soldados romanos que guardavam o sepulcro, para que o corpo não fosse roubado, “tremeram de medo dele, e ficaram como mortos” (v. 4). As mulheres que foram ao sepulcro, logo ao amanhecer do dia, simplesmente foi dito: “Ele não está aqui; já ressurgiu… e vai adiante de vós para a Galiléia” (v. 6). Quando retornavam, para contar aos discípulos, Jesus saiu-lhes ao encontro e elas o adoraram (Mt 28.4-9). Cada um dos evangelhos relata eventos diferentes ocorridos naquela manhã. Muitas tentativas foram feitas para reuni-los e explicar a ordem exata dos acontecimentos. Não se sabe, porém, se isso seria possível ou não, com as informações limitadas dadas pelos escritores. Cada um deles, entretanto, conta o fato da ressurreição. Jesus fora sepultado, mas depois foi visto vivo novamente (veja também Mc 16; Lc 24; Jo 20).
O assombroso fato da ressurreição deixou muitas dúvidas na mente dos discípulos. O próprio Jesus explicou a dois deles, que se dirigiam para Emaús, que sua morte fora necessária. Cristo explicou que tudo ocorrera daquela maneira para que as Escrituras se cumprissem. Ao que parece, os olhos deles estavam deliberadamente fechados; por isso, não reconheceram o Senhor até que este orou com eles e partiu o pão; naquele momento, então, “ele desapareceu de diante deles” (Lc 24.13-35).
O corpo de Jesus, após a ressurreição, era suficientemente real; mas, mesmo assim, era diferente daquele que fora tirado da cruz. As marcas dos pregos ainda estavam lá e o Cristo ressurreto movimentava-se à vontade, aparentemente por todas as partes, sem ser visto, pois andava de um lugar para outro (Jo 20.27). João sugere isso, ao descrever que no cenáculo onde os temerosos discípulos estavam escondidos, com medo dos judeus, Jesus simplesmente chegou e pôs-se no meio deles (v. 19). Talvez seja a mesma ocasião em que Lucas descreveu: “Jesus se apresentou no meio deles, e…eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam um espírito” (Lc 24.36,37). Cristo mostrou-lhes suas cicatrizes, para que entendessem ser Ele mesmo, o Mestre que eles tanto estimavam. A natureza extraordinária deste milagre também é vista nas dúvidas demonstradas por Tomé, o qual recusou-se a acreditar até que viu por si mesmo as cicatrizes. Quando contemplou Jesus e o reconheceu, a resposta dele manifestou o enorme impacto que tivera em toda a sua maneira de pensar. Simplesmente olhou para Cristo, atribuiu-lhe a divindade e disse: “Senhor meu e Deus meu!” Qo 20.28).
Embora estivesse noutro estágio, a ponto de ser reconhecido como Deus, Jesus ainda era humano e possuía um corpo material, pois podia ser tocado (Lc 24.39; 1 Jo 1.1, 3), ouvido, e comeu junto com eles (Lc 24.41,42; Jo 21.12). Em várias ocasiões Cristo aparece, para enfatizar que a ressurreição aconteceu segundo as Escrituras.
As testemunhas da ressurreição
Os escritores dos evangelhos demonstram claramente o interesse que têm em estabelecer a veracidade histórica da ressurreição. Falam sobre muitas testemunhas. O testemunho das mulheres que primeiro foram ao túmulo, cedo de manhã, é relatado com pouquíssimas variações nos detalhes nos quatro evangelhos. Havia testemunhas de que o túmulo estava vazio entre os discípulos, como Pedro e João, e entre os soldados romanos que ficaram aterrorizados e temeram pela própria vida (Mt 28.11-15); testemunhas ouviram as palavras do anjo; viram Jesus conversar no caminho de Emaús; contemplaram-no no cenáculo, entre os discípulos; presenciaram-no comer com os discípulos na praia da Galiléia (Jo 21.10-14), e muitas outras. O apóstolo Paulo menciona, posteriormente, sobre a importância dessas testemunhas oculares para esse evento que transformou o mundo, em 1 Coríntios 15.5-8, e cita que em uma ocasião Jesus apareceu para mais de 500 pessoas ao mesmo tempo.
O significado da ressurreição
A ressurreição de Jesus vindicou toda a missão que o levara a “se fazer carne” (Jo 1.14), viver, sofrer e morrer em obediência ao Pai, para a salvação da humanidade. O Messias sofredor, o que morreu pelo pecado, foi revelado como vitorioso sobre a morte e os poderes do maligno. A ressurreição também mostrou a aceitação de Deus do sacrifício expiatório de Cristo e atestou o cumprimento de muitas promessas do Antigo Testamento (Rm 6.8-10; Ap 1.18; etc.).
A ressurreição física de Jesus tornou-se o centro da pregação do cristianismo, por todas as razões já mencionadas e também porque assegura a salvação e o perdão dos pecados, por meio da fé; “Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Pois se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm 5.9,10). Além disso, a ressurreição tornou-se a garantia de que também os cristãos, por meio da fé em Cristo, um dia ressuscitarão no corpo e receberão a vida eterna (At 4.2; 26.23; 1 Co 15.12-34; etc.).
A glorificação de Jesus
O vocábulo “glorificação” é usado corretamente para descrever toda a obra da salvação alcançada por Jesus por meio da cruz, ressurreição, ascensão e do envio do Espírito Santo. Parece que o apóstolo João falou sobre a glória de Cristo de uma maneira inclusiva (Jo 12.16, 23, 28; 13.31; 17.1). Essa glorificação, entretanto, descreve mais especificamente sua ascensão ao Céu e sua exaltação (Jo 17.5; 1 Pe 1.21).
Depois de um período em que Jesus viveu sobre a terra e muitas pessoas testemunharam que Ele havia ressuscitado, Cristo finalmente retomou ao céu. A ascensão, que aconteceu perto de Betânia, é registrada em Lucas 24.50-53 e Atos 1.9-11. Esse acontecimento descreve o retorno de Jesus à glória (para a presença do Pai no céu) e sua exaltação por Deus. O fato de que foi encoberto por uma “nuvem” (At 1.9) provavelmente também indique esta “glória”, pois no Antigo Testamento Deus revelava sua “glória” numa nuvem (Ex 16.10; 24.16). A ascensão também cumpriu parcialmente a oração de Jesus em João 17.5,24, na qual pediu que os discípulos vissem sua glória.
Essa glória foi vista primariamente na exaltação de Jesus em sua posição de suprema autoridade, à mão direita do Pai, onde foi coroado como Rei dos reis (Fp 2.9-11; Cl 3.1; Ap 17.14; 19.16). Do céu, Cristo governa não somente a Igreja, mas todos os povos e nações. Também será de lá que Ele um dia voltará para julgar (At 1.11; Hb 9.28; 2 Co 5.10; 2 Tm 4.1; Ap 1.5; etc.). A ascensão de Jesus, porém, não significa simplesmente que Ele se tomou Rei dos reis, mas também o qualificou para cumprir seu único papel como sumo sacerdote. Isso significa que Ele, como as primícias da ressurreição, teve acesso ao céu para todos os crentes (1 Co 15.20) e pôde enviar o Espírito Santo, a fim de estar com seu povo (Jo 7.39; At 2.33).
A obra contínua de Jesus
A Bíblia ensina que Jesus está vivo, hoje, no céu, onde exerce uma soberania plena, como Rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele vigia as nações, seu povo e todo o cosmos. Como Senhor exaltado, que subiu aos céus na presença de seus discípulos, Ele distribui as bênçãos do seu Reino, que podem ser resumidas na palavra “vida” (2 Tm 1.1,10). Jesus também cumpre seu papel de Sumo Sacerdote. Como Mediador entre Deus e os homens, Ele entrou nos céus, e levou consigo todos os pecadores arrependidos à presença do Senhor. Ele se encontra no Santo dos Santos, na presença do Pai. De lá do trono de Deus, Cristo intercede em nosso favor; como ser humano na presença do Senhor, Ele permanece como representante da humanidade na glória. Ao fazer isso, completa a obra da redenção que se inicia naqueles que crêem (Rm 8.34; Hb 6.19,20; 9.24). Jesus intercede por seu povo, com base no sacrifício feito de uma vez por todas pela humanidade, capacitando-a assim ao recebimento do perdão.
Embora entronizado no céu como Senhor da glória, Jesus também continua a operar no meio de seu povo na terra, por meio do Espírito Santo. Os que pertencem a Ele pela fé são controlados pela terceira pessoa da Trindade, que se constitui em sinal dos que pertencem a Cristo: “Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9; veja Espírito Santo).
Conclusões
Acima, mencionamos alguns dos ensinos da Bíblia sobre Jesus. Quanto mais estudamos as evidências bíblicas, mais fica claro que os autores do NT observavam todo o AT cumprir-se no nascimento, vida, morte, ressurreição e exaltação do Senhor Jesus Cristo. Portanto, em Cristo Deus veio a este mundo, verdadeiramente humano mas sem pecado. Jesus é visto como Deus, embora tenha temporariamente colocado de lado algumas de suas prerrogativas, a fim de ser o Mediador do grande amor e da misericórdia do Senhor para com o homem pecador. Em sua vida, sua incrível autoridade como Filho de Deus foi vista quando curou, expeliu espíritos malignos, anunciou o reino de Deus e fez com que até mesmo a natureza lhe obedecesse. Sua capacidade de perdoar pecados, de ver o coração de uma pessoa e conhecer sua mente, de confrontar a hipocrisia e a falta de entendimento dos líderes religiosos da época, tudo isso levou muitos a considerar quem realmente era Jesus. No final, tudo isso foi demais para eles. Sentiram-se ameaçados e foram incapazes de ver que Cristo era o caminho, a verdade e a vida, e por isso pediram sua crucificação. Nesse ato, entretanto, residia o último cumprimento do grande e eterno plano de Deus: a salvação pela graça. Jesus ofereceu o sacrifício definitivo pelo pecado, ao morrer na cruz; assim, completou a obra da salvação e redenção de todo o que tem fé nele. Sua ressurreição demonstrou que Deus aceitou tal sacrifício e, a seguir, sua verdadeira condição de Rei dos reis e Senhor dos senhores foi revelada em sua exaltação à destra do Pai. Conforme os cristãos primitivos entenderam rapidamente, a única resposta apropriada é o louvor a Cristo: “Proclamando com grande voz: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor” (Ap 5.12).
Este estudo foi elaborado pela equipe do Portal Personagem Bíblico a partir de pesquisa bíblica, tendo como uma das referências o verbete “Jesus (Cristo, o Senhor)” da obra Quem é Quem na Bíblia Sagrada (Editora Vida).
