Ezequiel

Imagem: Bab voc fragment 1.jpg · Paul Kahle · Public domain · Wikimedia Commons
O nome Ezequiel significa “El (Deus) é forte” (Ez 3.14), ou “El fortalece” (Ez 30.25; 34.16), ou ainda “que El fortaleça”. Este profeta viveu durante um dos períodos mais difíceis na história judaica — o exílio babilônico — e isso pode indicar a razão de seu nome. Foi um dos 10.000 judeus levados cativos de Jerusalém durante a campanha de Nabucodonosor em 597 a.C. (2 Rs 24.10-17) e muito provavelmente profetizou aos exilados que moravam em Tel-Abibe, próximo ao rio Quebar (Ez 3.15). O local exato de sua moradia, entretanto, tem sido calorosamente debatido, principalmente devido à precisão da descrição do Templo em sua visão (Ez 8 a 11). A proposta é que tinha residências múltiplas, para explicar as descrições detalhadas dos eventos em Jerusalém, bem como no exílio. Talvez a melhor alternativa seja localizar seu ministério na Babilônia, pois seus oráculos para os judeus foram feitos por meio da comunicação indireta, similares aos dirigidos a outras nações, e que a precisão de suas descrições dos eventos em Jerusalém seja causada por ser divinamente transportado ao local num êxtase. De acordo com Ezequiel 29.17, ele profetizou até quase 570 a.C., ou seja, o 27g ano do exílio de Joaquim na Babilônia.
Ezequiel era sacerdote; por isso, conhecia profundamente o Templo de Jerusalém e seus cultos, embora seja duvidoso que tenha servido alguma vez ali. A menção de trinta anos em Ezequiel 1.1 refere-se provavelmente à sua idade, para informar ao leitor que já era adulto; portanto, podia começar seu ministério. A princípio suas mensagens não eram bem recebidas (Ez 3.25), mas posteriormente o povo criou estima pelo profeta e sua mensagem tornou-se respeitada (Ez 8.1; 14.1; 20.1).
O livro parece ser composto por uma série de oráculos com datas determinadas (Ez 1.2; 3.16; 8.1; 20.1; 24.1; 26.1; 29.1, 17; 30.20; 31.1; 32.1, 17; 33.21; 40.1) os quais marcam os pontos de mudança em seu ministério e proporcionam o pano de fundo necessário para cada mensagem. Os oráculos para as nações, entretanto (Ez 25 a 32), provavelmente formam uma unidade à parte, pois não seguem a estrutura cronológica desenvolvida no restante do texto. O livro de Ezequiel pode ser dividido em três seções: (a) os oráculos de juízo contra Judá (Ez 1 a 24); (b) os oráculos contra as nações estrangeiras (25 a 32); e (c) oráculos finais [mensagens de esperança e restauração] (33 a 48). As duas últimas seções, contudo, devem ser vistas juntas, como uma mensagem de esperança para Israel, pois pronunciam a condenação das nações estrangeiras e a possibilidade da restauração dos judeus. Essa estrutura provavelmente está organizada de acordo com a ordem da sequência dos eventos históricos: primeiro, para anunciar o juízo (em 586 a.C., quando Jerusalém foi destruída pelos caldeus, Ez 24.25-27); segundo, para transmitir a esperança e a restauração (Ez 25 a 48). Existem repetições temáticas em cada uma das seções principais do livro, as quais proporcionam a necessária coesão: (1) o atalaia (Ez 3.17); (2) a glória do Senhor que deixa o Templo (8 a 11); (3) o retomo (43).
O livro começa com uma clara descrição do chamado e da comissão de Ezequiel (Ez 1 a 3), incluindo uma fantástica figura da glória e da transcendência de Deus (1.428), bem como uma severa advertência ao atalaia que não avisa o povo sobre o perigo (3.16-21). Essas duas mensagens motivam Ezequiel a executar seu difícil trabalho, mesmo quando aparentemente não lhe concedem a devida atenção. Teólogos modernos chegam a questionar a sanidade do profeta, por causa dos extremos a que chegava para ilustrar suas mensagens. Exemplos: fez um modelo de Jerusalém sob sítio (4.13); ficou deitado sobre seu lado esquerdo durante 390 dias e virou-se sobre o lado direito por mais 40 dias (4.4-17); raspou o cabelo e queimou um terço dele; cortou um terço com uma espada e espalhou um terço ao vento (5.1-4). Até mesmo a morte de sua esposa tomou um significado profético (24.16-27). O ministério de Ezequiel foi crucial para os exilados, porque os alertou sobre o juízo iminente. Conforme Ezequiel 2.5: "E eles, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são casa rebelde, hão de saber que esteve no meio deles um profeta”. Era incansável em condenar os judeus por sua infidelidade para com Deus. A longa história de rebelião da nação israelita começou logo depois do Êxodo (Ez 16; 20; 23) e continuou até os dias de Ezequiel, com atitudes como a de não guardar o sábado (20.12,24), adorar nos lugares altos (6.13; 20.28) e profanar o santuário (23.37s). A tarefa do profeta era demonstrar-lhes a importância da obediência a Deus e as consequências do pecado. Para os que dessem ouvidos às suas palavras e cressem em sua mensagem, haveria “vida”; mas para os outros, o juízo seria certo. O ministério de Ezequiel indicava que, mesmo no meio de severo juízo, Deus ainda falava com o povo; embora fossem castigados, não seriam abandonados. Enquanto o profeta Jeremias proclamava a mensagem do Senhor em Jerusalém, uma voz igualmente poderosa a proclamava na Babilônia, aos exilados, para que estivessem cientes dos propósitos de Deus. Essa seção termina com o anúncio de que Nabucodonosor, rei da Babilônia, sitiara Jerusalém em 588 a.C. e o resultado final seria óbvio: a destruição.
Ezequiel então fala da atitude dos inimigos de Israel quanto à destruição de Jerusalém (Ez 25 a 32): “Visto que bateste com as mãos, e pateaste com os pés, e te alegraste de coração em toda a tua malícia contra a terra de Israel” (25.6). Parte desse juízo sobre as nações era uma demonstração da justiça de Deus, pela participação que tiveram na destruição de Jerusalém, ou por a terem aprovado. Outra parte serviu para vindicar Yahweh como o soberano governador sobre as nações (Ez 25.7,11,17). Tanto os israelitas como os outros povos precisavam entender que o julgamento lançado sobre Israel era devido à sua própria impiedade, e não por causa da falta do poder de Deus. As outras nações em breve descobririam, em primeira mão, o poder de Yahweh, quando fossem punidas por sua arrogância em atacar Israel. Nos dias de Ezequiel, a vitória de um povo sobre outro era atribuída à superioridade dos deuses do país vencedor. Em breve, todas as nações que acreditavam ser seus deuses superiores seriam derrotadas e então entenderiam que não foi devido à impotência de Yahweh que destruíram Israel.
A última seção (Ez 33 a 48) começa com dois oráculos que enfatizam a necessidade da responsabilidade individual, quando cada pessoa será julgada de acordo com suas próprias atitudes. Segue-se então a mensagem devastadora dos fugitivos de Jerusalém de que a cidade havia caído (Ez 33.21). Os ímpios receberam sua punição, tanto os líderes orgulhosos de Jerusalém, como os que se iludiram, ao permanecer na cidade convictos de que eram o remanescente (w.23-29). Desse ponto em diante, Ezequiel anuncia a esperança e a restauração da nação, a qual Deus realizará de bom grado. O Senhor é descrito como aquele que concederá a vida, restaurará seu povo e assumirá o papel de pastor, cargo de que tanto abusaram os líderes de Israel. Ele purificará Israel, restabelecerá suas fronteiras e trará os judeus de volta do exílio. Um forte contraste é feito, em Ezequiel 33 a 37, entre a infidelidade de Israel e a destruição causada por ela e a fidelidade de Yahweh e a restauração que ele estabelecerá. A restauração não é baseada em alguma obrigação ou compromisso para com os judeus, pois eles claramente falharam em manter a aliança; pelo contrário, é estabelecida unicamente na fidelidade de Yahweh. Essa restauração incluirá um pastor da linhagem de Davi (34.23 s), que liderará o povo; um novo coração para os judeus, para que lhe obedeçam (36.26s); uma nação unificada (37.17-22) e uma nova aliança de paz (37.26-28). Israel é pintada sob a liderança do descendente de Davi como uma nação purificada, que finalmente cumpre a esperança expressa em Êxodo 6.7: Yahweh será o seu Deus e eles serão o seu povo (Ez 37.27). Essa restauração só pode ocorrer depois que o Senhor conceder aos judeus um novo coração, o qual será transformado, a fim de que eles tenham disposição de guardar seus mandamentos; então Deus restabelecerá um relacionamento apropriado, no qual Yahweh será o supremo Senhor e governará das montanhas sagradas de Israel. Vistos nesta ótica, Ezequiel 38 e 39 são centrais, pois Yahweh destruirá todos os seus inimigos e ficará claro para todos que ele é o Senhor (um título usado mais de 400 vezes em Ezequiel). Os oito capítulos finais são de difícil interpretação; mas, no mínimo, indicam a soberania de Deus sobre Israel e apresentam uma figura clara da santidade que Yahweh traz à nação eleita. A seguir, apresentamos as quatro interpretações propostas:
A visão profética: Esses capítulos contêm o esboço do Templo que os exilados construiriam, quando retornassem a Israel.
A visão simbólica do cristianismo: Esses capítulos já foram simbolicamente cumpridos na Igreja cristã, e a figura da Nova Jerusalém no livro de Apocalipse é baseada no padrão de Ezequiel.
A visão dispenséKional: Essa passagem, bem como todas as promessas para Israel, será cumprida literalmente no futuro; em outra dispensação, todos os elementos do Antigo Testamento, as festas, os sacrifícios, o sacerdócio e o culto no Templo serão reativados.
A visão apocalíptica: A passagem é interpretada contra o pano de fundo de outros acontecimentos apocalípticos, que usam simbolismo, simetria numérica e visão futurista, para apresentar sua mensagem. E uma maneira de explicar o futuro em termos tangíveis, com base em elementos já familiares aos ouvintes.
Essa interpretação leva em conta o contexto e o tipo de literatura, mais do que as outras três. De acordo com essa visão, o Templo ilustra a proeminência da adoração e a presença de Yahweh nessa nova época.
O livro de Ezequiel é parte do cânon hebraico chamado de “Profetas Maiores” (junto com Isaías e Jeremias). Corresponde mais a Jeremias em termos cronológicos e no tipo de mensagem. Na verdade, vários temas aparecem em ambos os livros: por exemplo, oráculos contra as nações (Jr 46 a 51; Ez 25 a 32); a destruição de Jerusalém Qr 39; 52 ; Ez 24.2; 33.21); a nova aliança Qr 31.31-33; Ez 36.25-32); o Templo não é uma garantia de proteção Qr 7; 26.2-9; Ez 8 a 11); etc. A importância fundamental da mensagem de Ezequiel encontra-se no fato de que os exilados na Babilônia não estavam abandonados por Deus, embora a punição que experimentavam fosse determinada por Ele. A grande incerteza que os judeus experimentavam era se teriam qualquer comunhão com Yahweh, agora que tinham quebrado a aliança. Teriam perdido a posição especial de povo escolhido de Deus? Yahweh toma a iniciativa e confirma que ainda mantém um relacionamento com eles e que os libertará; contudo, deixa muito claro para o povo que a restauração será operada por Ele e não dependerá dos esforços fracassados deles.
Existem vários temas importantes no livro de Ezequiel;
A so b er a n ia d e D eus: O Senhor está no controle da história; não importa o que aconteça, seus planos prevalecerão. Nem mesmo a desobediência do povo escolhido comprometerá seus planos, os quais Ele fará que dêem frutos no final. Essa ideia, conforme expressa em Ezequiel 1 com a visão de Deus que governa toda a criação, é repetida várias vezes por todo o livro (em Ez 3.23, para confirmar seu ministério; em Ez 9 a 11, antes da destruição de Jerusalém; e em Ez 43 a 46, durante a restauração de Israel).
O Filho d o h om em : Essa frase é utilizada por Ezequiel aproximadamente 90 vezes e enfatiza o fato de que ele é meramente um mensageiro do Soberano do Universo, que planejou todos os eventos que acontecerão, os quais ninguém pode impedir que se cumpram.
A resp o n s a b ilid a d e individual: Essa verdade é enfatizada nos oráculos do atalaia (Ez 3; 33) e na refutação do provérbio das “uvas verdes” (Ez 18). Sempre é mais fácil culpar outrem pelos nossos erros, e Israel não era exceção. Mas Deus proclama que jamais aceitaria a acusação contra as gerações anteriores. Cada uma delas tinha pecado suficientemente para merecer a punição. Foi somente devido à paciência do Senhor que as gerações anteriores não foram castigadas imediatamente. A resposta dos israelitas em Ezequiel 18.19 sugere uma das duas alternativas: ou o povo desejava passar a culpa adiante, indefinidamente, para seus descendentes, para evitar o ajuste de contas; ou estava com o coração tão endurecido, que não se importava com quem receberia a punição, desde que não fossem eles. Tanto a mensagem sobre o “atalaia” como a das “uvas verdes” confirmaram que o atalaia (Ezequiel) e os israelitas seriam responsabilizados por suas ações. Era assim que deveria ser — o Senhor Todopoderoso declarou. (Veja Profetas e Profecia.)
Este estudo foi elaborado pela equipe do Portal Personagem Bíblico a partir de pesquisa bíblica, tendo como uma das referências o verbete “Ezequiel” da obra Quem é Quem na Bíblia Sagrada (Editora Vida).
